sábado, 4 de novembro de 2017

CINECLUBES BRASILEIROS, EM RÁPIDA PANORÂMICA



Este artigo foi escrito para o DIARI DI CINECLU, de Roma, oferecendo uma rápida panorâmica sobre o cineclubismo brasileiro. A versão em italiano pode ser lida em: http://www.cineclubroma.it/images/Diari_di_Cineclub/edizione/diaricineclub_055.pdf


CINECLUBES BRASILEIROS, EM RÁPIDA PANORÂMICA


“Cineclubismo é antes de tudo movimento, movimento de gente, de ideias, de imagens e sonhos em favor da atividade cinematográfica”. (MANIFESTO de Rearticulação, 2003)


A memória historiográfica do Movimento Cineclubista Brasileiro, carece de melhor organização e sistematização. Dispersa, e em termos bibliográficos, são parcas e carentes de pesquisa e de publicações a respeito.  Depois da Segunda Rearticulação do Movimento Cineclubista Brasileiro, ocorrida no início do século XXI, de 21 a 23 de novembro de 2003[1], é que começaram a surgir significativos “Trabalho de Conclusão de Curso”, “Teses de doutorados”, livros e filmes, abordando diretamente esta atividade e sua forma de organização, reflexão e difusão da cultura cinematográfica e do audiovisual brasileiro.



Falando genericamente, vive na “Memória do Cinema Brasileiro”, uma história repleta de substantivos e adjetivos, que qualificam o cineclubismo como uma das mais importantes atividades da cultura cinematográfica nacional, principalmente na difusão da cultura cinematografia e na formação de profissionais do cinema.

Segundo Paulo César Saraceni, o Cinema Novo nasceu nos cineclubes, dentro do cineclube da FNFi (Faculdade Nacional de Filosofia do Rio de Janeiro). Da turma que ele frequentava saíram grandes diretores: “O Saulo Pereira de Melo, que era o presidente do cineclube, Miguel Borges, Marcos Faria”. O cineclube sempre fez parte do Movimento do Cinema Novo e foi dele que saiu a primeira turma, como afirma Maurice Capovilla: “nossa formação foi basicamente de cineclubista” (SIMONARD, 2006). No que pese a característica brasileira, o Cinema Novo teve forte influência do Neo realismo italiano e da Nouvelle Vague francesa.

 Registra-se no Brasil, já no início do século XX, em 1917, a experiência do Cineclube Paredão, na cidade do Rio de Janeiro, “com Adhemar Gonzaga, Álvaro Rocha, Paulo Vanderley, Luís Aranha, Hercolino Cascardo e Pedro Lima, formam um grupo de interessado em cinema, frequentando os cinemas Iris e Pátria e discutindo sobre filmes. Conforme Pery Ribas, reúnem-se na casa de Álvaro Rocha, que colecionava filmes, e lá assistiam sessões como um pequeno club de cinema” (RUDÁ, Andrade, 1962).



Os cineclubes surgiram na França, por inspiração do cineasta Louis Delluc e do crítico de arte, Ricciotto Canuto, italiano radicado na França. Em 1913 aconteceu a primeira sessão acompanhada de debate após a exibição de um filme, “A Comuna de Paris”, realizado pelo do grupo do Cineclube do Povo (MACEDO, Felipe, 2013).

O Chaplin Club foi criado em 1924 na cidade do Rio de Janeiro, com o intuito de defender o filme mudo em detrimento do sonoro. Editou 9 edições da revista O FAN. Em 1931 lançou o filme “Limite”, 1930 de Mário Peixoto, quando debateu e defendeu a integridade física da cópia do filme, contra a sanha do seu diretor que queria destruí-lo. Salvo a cópia e sem os negativos, posteriormente, “como foi o caso de Plínio Sussekind Rocha, lutando durante anos no importante trabalho de recuperação do filme”  (ISMAIL, 1978), que mesmo tendo sido exibido pouquíssimas vezes, transformou-se em mito do Cinema Brasileiro, não só pelas suas qualidades técnicas, artísticas, estéticas, linguísticas e narrativas, mas também, por ser apresentado em forma de libelo, em defesa do filme silencioso em detrimento do falado, como atesta Walter Lima Jr. (SIMONARD, 2006).

Atitude seminal foi também a do Clube de Cinema de São Paulo, fundado em 1940, quando a 07 de outubro de 1946, empreenderam a Fundação da Cinemateca Brasileira, liderados por Paulo Emílio Salles Gomes, Francisco Luiz de Almeida Salles, Rubem Biáfora, Múcio Porphyrio Ferreira, Benedito Junqueira Duarte, João de Araújo Nabuco, Lourival Gomes Machado e Tito Batini, impulsionando o meio cinematográfico em São Paulo. (CINEMATECA).

No Brasil o modelo dos Clubes de Cinema franceses permaneceu influente até meados da década de 50. Vias de regra, eles eram criados, em universidades de ciências humanas, tendo à frente, escritores, críticos de cinema, jornalistas, professoras, intelectuais liberais, que contribuíram decisivamente para a consolidação dos pilares do cinema nacional, cuja principal característica, foi à reflexão crítica da obra cinematográfica; a formação de profissionais da área, além da criação de instituições como as Cinematecas; Festivais e entidades da classe cinematográfica.

Posteriormente em 29 de outubro de 1956, Carlos Vieira liderou o grupo que fundou o “Centro de Cineclubes do Estado do Estado de São Paulo”, entidade convertida no primeiro órgão de representação do Movimento Cineclubista Brasileiro. O Centro realizou de 05 a 10 de fevereiro de 1959 a I Jornada de Cine-Clubes Brasileiros (O ESTADÃO, 1956), evento que a partir de 1962 passou a ser promovido pelo Conselho Nacional de Cineclubes [CNC], e assim permanece até os dias atuais.

O CNC representa o conjunto dos cineclubes brasileiros, foi fundado em 26 de maio de 1962. Em 1968, devido as suas atividades em defesa do filme nacional e da liberdade de expressão, foi fechado pela Ditadura Civil Militar instalada no país em 1964.
Sem suas entidades de representação, os cineclubes brasileiros foram reduzidos, e em todo o país, não passou de uma dúzia e mesmo sob a Ditadura Militar, em 1974, realiza-se semiclandestinamente, de 02 a 05 de fevereiro de 1974, a “VIII Jornada Nacional de Cineclubes”, na cidade de Curitiba, evento que reorganiza os cineclubes do país.

Atuando sob a Ditadura Militar, os cineclubes criaram em 1976 a Distribuidora Nacional de Filmes em 16 mm para Cineclubes [DINAFILME], com dois objetivos básicos: a) garantir a existência Nacional do Movimento Cineclubista, por meio da distribuição de filmes e b) criar as condições necessárias para a implantação de um circuito alternativo de exibição de filmes majoritariamente brasileiros, condizentes com a atuação dos cineclubes [CINECLUBE, 1983].

No período que se estende de 1974 até 1989, os cineclubes se engajaram na luta mais ampla da sociedade brasileira, contra o regime ditatorial. Filmes foram proibidos, cineclubistas e projetores presos, cineclubes foram fechados, a Dinafilme foi invadida pela Polícia Federal por duas vezes em 1º de março de 1978 e 31 de agosto de 1979, mais de 200 cópias de filmes foram presas, cineclubistas editaram jornais, revistas, saíram do país levando filmes proibidos para participar de festivais e depositar em cinematecas estrangeiras para garantir sua existência, e também entraram no país com filmes realizados por coletivos de produção cinematográficas das guerrilhas de El Salvador, Nicarágua, Peru, Vietnam, Eritréia, Cuba e filmes sobre as guerras de libertação nacional de Moçambique, Angola, Palestina, entre outros, muitos daqueles filmes foram exibidos clandestinamente e posteriormente, proibidos, presos. Cineclubistas sequestraram avião, entraram para a luta armada e outros foram exilados.

Além de filmes oriundos das filmografias citadas acima, as programações dos cineclubes foram fortemente contempladas pelo cinema europeu, notadamente italianos, alemães, franceses e por filmes dos países do bloco socialista, principalmente os poloneses, tchecoslovacos soviéticos e russos. A Dinafilme não distribuiu filme norte-americano proveniente de Hollyood e quando tentou, sofreu pressão de alguns cineclubes que se recusaram a exibir filmes de John Ford[2] (CADINA, S.D.).

Naquele mesmo período, os cineclubes, através da Dinfilme lançaram e chegaram a pagar filmes produzidos pelos Movimentos Sociais para o “Mercado Alternativo”, formado pelos Cineclubes, Sindicatos, Comunidades Eclesiais de Base ligados à Igreja Católica, Movimentos Sociais, Associações Atléticas estudantis, sedimentando as bases de um Circuito Nacional de filmes fortemente identificados com o que chamávamos na época de Terceiro Mundo.


No final da década de 1970 e início da de 1980, veio a crise do petróleo, o fechamento dos cinemas de rua, o avanço e a consolidação do vídeo cassete, a redemocratização do país, a promulgação de uma nova Carta Magna, a eleição de um civil para a presidência da República e em consequências veio o refluxo dos Movimentos sociais, a queda do Muro de Berlim e o fechamento da Empresa Brasileira de Filmes – EMBRAFILME. Neste período, a liderança cineclubista de então, não conseguiu orientar a atividade cineclubista para atuar perante a nova realidade nacional e novamente os cineclubes entraram em um período de hibernação (NARRATIVA-CINECLUBISTA, 2008).

A atuação da atividade cineclubista brasileira quase sempre esteve à margem da sociedade de consumo e do aparelho estatal, sem apoio, num permanente e persistente ato de resistência as adversidades sócios culturais internas, combatendo a indiscriminada invasão do produto cinematográficos e televisivo de consumo ligeiro proveniente de Hollywood.

No Brasil, apesar de todas as contradições, os cineclubes são reconhecidos por Lei, como associações culturais, democráticas e sem finalidades lucrativas, em sua maioria, não se constituem juridicamente, basicamente por falta de apoio financeiro, tornando efêmeras suas atividades. Na sua estrutura, são representados no âmbito estadual por um único órgão de representação, prevista nos estatutos do também única, entidade nacional de representação, o Conselho Nacional de Cineclubes, membro filiado à Federação Internacional de Cineclubes.

Com o advento do governo Luiz Inácio Lula da Silva e de ações de alguns cineclubistas, as atividades do Fórum Social Mundial, a transição do cinema analógico para as novas tecnologias digitais, os cineclubes se rearticularam e de 21 a 23 de novembro de 2003, realizaram a XIV Jornada Nacional de Cineclubes. Hoje os cineclubes estão presentes em todos os 26 Estados e no Distrito Federal.

Com a rearticulação, a questão da produção, passou a ser novo paradigma do cineclubismo brasileiros. Hoje o nome CINECLUBE virou grife, a imensa maioria dos canais de televisão abertos ou a cabo, tem uma sessão cineclube, empresas, escolas e movimentos sociais, ostentam programas com o nome cineclube, mas, entre todas as mudanças de uma sociedade que começou a vislumbrar mudanças sócio econômicas, culturais, comportamentais, impulsionadas pelas questões globais, a direção cineclubista, busca orientar os cineclubes sem considerar, que mesmo com as transformações operadas no cinema, sem o filme, a conjugação do verbo CINECLUBAR inviabiliza o ato principal do fazer cineclube.

Diogo Gomes dos Santos
Cineclubista, Cineasta, Historiador, foi presidente da Federação Paulista (1981 – 82) e do Conselho Nacional de Cineclubes, 1984 – 86, Administrador Geral da Dinafilme, associado fundador do Cineclube Bixiga, fundou e editou o jornal “ImageMovimento”, a revista “CineclubeBrasil”, roteirista e diretor de cinema.



Referências Bibliográficas Consultadas

ANDRADE, Rudá – Cadernos da Cinemateca nº 1, Cronologia da Cultura cinematográfica no Brasil, São Paulo, Fundação Cinemateca Brasileira, 1962.

SANTOS, Diogo Gomes, Imagens do Imaginário, Pop-Art, Cinema e Denúncia Social, Trabalho Conclusão Disciplina, Pós-Graduação, O Ppapel do Documentário do Nuevo Cinema Latino-Americano, PROLAM/USP, São Paulo, 2017.

SIMONARD, Pedro, A Geração do Cinema Novo, para uma Antropologia do Cinema, Rio de Janeiro, Mauad X, 2006.

ISMAIL, Xavier, Sétima Arte: Um Culto Moderno, pp. 201, Perspectiva, São Paulo, 1978.

Disponível em www.diogo-dossantos.blogspot.com.brAcessado em 21/08/2017.

Disponível em: <http://www.academia.edu/6409070/Cinema_do_Povo_o_primeiro_cineclube> Acessado em 21.08.2017.
 
Disponível em: http://www.cinemateca.gov.br/pagina/a-cinemateca-historia Acessado em 21/o8/2017.

Jornal O Estadão, 28/05/1956, Documento do acervo Cineclubista Diogo Gomes dos Santos.

Boletim Cineclube, 1983, Documento do acervo Cineclubista Diogo Gomes dos Santos.

Boletim CADINA, 1982, Documento do acervo Cineclubista Diogo Gomes dos Santos.

Disponível em: 






[1] - A reorganização do Movimento Cineclubes Brasileiro, estava previsto no programa de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sua REARTICULAÇÃO tem início em São Paulo em torno da proposta de exibição de filmes em São Paulo, proposta pelo autor e posteriormente se efetiva com a ida de Gilberto Gil para o Ministério da Cultura, Orlando Senna para a Secretaria do Audiovisual e Leopoldo Nunes para chefia de Gabinete de Orlando Senna.
[2] - Em São Paulo o Cineclube do Centro de Cultura Operária [CCO], que funcionava no bairro da Bela Vista, se recusou a passar o filme “No Tempo das Diligências” {Stagecoach}, 1939 Dirigido por Jonh Ford, assim como a Administração Regional da Dinafilme de Minas Gerais, sob a responsabilidade da Federação Mineira de Cineclubes, se recusou e devolveu uma cópia do filme citado, por ser americano e em ambos os casos, o fato de ser Jonh Weyne o ator do filme, contribuiu decisivamente para a decisão. Pesou sobre o ator o fato dele ter sido presidente do Comitê de Atividades Anti-Americanas.

domingo, 17 de setembro de 2017

CINECLUBISTA BRASILEIROS, ESCUTAI-VOS!


Cineclubista Brasileiros, Escutai-vos! [1]



“Um espectro ronda[2]” o Movimento Cineclubista Brasileiro, o espectro da identidade, perdida?

É difícil conceber a existência do cineclubismo como atividade civilizatória, desassociada da cultura cinematográfica e do audiovisual, da militância política e cultural, sem o filme como ferramenta do fazer cineclube. Urge perguntar: Os cineclubes ainda são organizações coletivas?

Cineclubistas deveriam saber, que o desenvolvimento da narrativa fílmica, é impulsionada pela ação do antagonista. Portador de significados, o protagonista conduz a resolução do conflito - gerado pela ação do antagonista -, e no final, o protagonista salva a mocinha e eles...


Como atividade difusora da cultura cinematográfica, um dos objetivos dos cineclubes, era participar diretamente do processo de criação e produção do cinema, já que no final, pela natureza da sua atividade, lá estariam, como princípio e fim desse metamorfósico e ideológico cineclubar, utópico, que os mantém ativos.

A atividade cineclubista permanece viva na memória do Cinema Brasileiro, com substantivos, adjetivos e verbos que os qualifica e legítima sua contribuição no desenvolvimento do cinema nacional.

Recorremos aos nossos antepassados para realçar que os festivais, as cinematecas, as entidades de representação da classe cinematográfica, os primeiros passos para o reconhecimento das imagens em movimento, como expressão da “beleza cinematográfica”, elevada à condição de arte, em muito se deveu a atitude cineclubista. Desconhecido o passado, inapropriado o futuro.



A impressão genérica é que hoje, os cineclubes renunciam o filme como objeto preferencial do seu trabalho e tão pouco lhe confere legitimidade como meio de expressão, tanto do ponto de vista da informação, da comunicação, da educação, como da diversão. Papo reto: Hoje, os cineclubes se sentem representados nos filmes brasileiros?

O mercado de cinema no Brasil e no mundo (ressalvo para as exceções), continuam “ocupados” pelo produto estrangeiro, principalmente aquele de consumo ligeiro, notadamente norte-americano, tornando na prática, o filme nacional, exilado em seu próprio território. Continuamos vendo um ou outro filme de nossos vizinhos latino-americanos, pela via do invasor. É assim que “Nós somos o público”?

Somos mais de 207 milhões de habitantes, talvez, 10% da população tem acesso as salas de cinema, ao filme brasileiro (nos referimos ao público, ingresso vendido é outro departamento). Permanece o índice de 95% dos nossos municípios sem sala de cinema.  Isso nos diz respeito? E o outros 90% da população, que lugar ocupa nos objetivos dos cineclubes?


Vivemos tempos difíceis, mas poucas vezes o terreno foi tão propício como agora, para os cineclubes proliferarem país afora. O debate é condição sine-qua-non na essência do cineclubismo. Nunca se produziu tanto cinema como atualmente e nunca o acesso ao filme foi tão favorável como agora. Um pendrew, uma difusora no bolso.

Por imposição do fato, estarmos vivendo num Estado de EXCEÇÃO. Declinamos o silêncio, as armas cineclubistas, aguçai a vossa militância cidadã, e como diz o também cineclubista Vinícius de Morais: E no entanto, é preciso cantar! Paulo (personagem do filme Terra em Transe, 1967, Glauber Rocha): Eu preciso cantar! Cineclubistas: Precisamos cantar!

Desde a última jornada, pipocam esforços pela nossa imensidão territorial, iniciativas para recolocar o cineclubismo na cena cultural do país, no que pese a existência de teoria vaticinando o fim dos cineclubes!



Destravemos o diálogo, ocupemos as ferramentas digitais com o altivo som e movimento da língua portuguesa, projetemo-nos nas telas e juntos com o público, vamos conversar com o filme.

Parece evidente, que precisamos com muita urgência, estabelecer um processo de escuta para ouvir o outro, o diferente, o divergente e até mesmo o correligionário. É na lista “cncdialogo”, que este processo de escuta cineclubista, deve ser fomentado e conduzido pelo bom senso, em torno de uma pauta mínima, visando a realização da próxima jornada e de uma possível “Consolidação do Espaço Cineclubista[3](Slogan da gestão 1984-86), e recolocar o Movimento Cineclubista no olho do furacão da luta geral da sociedade brasileira, por sua plena normalidade constitucional.

Os cineclubes estão na base piramidal da sociedade brasileira, conversam direto com o público, como indica a “Carta de Tabor” e por isso, nossa aversão quanto a interpretação de que “Nós somos o público”.


Na plenária da última Jornada foi formada uma Comissão para elaborar propostas para mudar os estatutos. As propostas foram compiladas, estão à disposição. Mas, como discutir mudança de estatutos, quando está em cheque a natureza do objeto que ele deverá regular? A compreensão do que é um cineclube, é consensual?

Convenhamos! A autocrítica é fator essencial no exercício da democracia. Será ser difícil outra Assembleia do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros – CNCB -, sem Jornada, sem Pré-Jornada, sem discussão do processo eleitoral, laureada de incertezas, imersos no nada, como já aconteceu antes. É urgente fazermos uma avaliação crítica da Rearticulação de 2003.



Partirmos de corações e mentes abertas, sabendo que a princípio estamos todos do mesmo lado, alguns nas mesmas e outros em barricadas diferentes, mas do mesmo lado, dispostos a saber quem somos e quem é o outro que está do meu lado?

O que estamos propondo é que conversamos, de maneira franca, radicalmente indignada, fervorosa, democrática, na defesa de nossas ideias e convicções. Sabendo que poderemos defender pontos de vistas diferentes, antagônicos, mas sinceros. É desse diálogo que pretendemos manter viva, mais do que nunca, a atitude cineclubista!

Uma vez cineclubista, sempre cineclubista!

O convite está lançado!


Diogo Gomes dos Santos
Cineclubista




[1] - Colocamo-nos ao lado dos “torcedores” do que DOS teóricos do marxismo, o Uni-vos, fica explicito. Optamos pelo “Escutai-vos”, na perspectiva do coletivo. Nota do Autor.
[3] -, Boletim Telão nº 1, publicação do então CNC.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

FUERA DE AQUI!

Fuera de aqui*
Este texto foi escrito como comentário em resposta a um Artigo de um amigo (João Carlos Faria), para o site Entrementes, que pode ser acessado em: http://entrementes.com.br/2017/09/hollywood-se-faz-real/, em 07/09/17.


Meu querido amigo Joka (João Carlos Faria), permita-me dizer com respeito e carinho: Hollywood, fora daqui! Qualquer cultura que exclui o outro, pouco ou nada tem a contribuir com a evolução da civilização humana. Na sua usura, violência e prepotência hollywood prima como exemplo.
Em fevereiro de 1911, aportou no Brasil, uma comitiva que ficou conhecida como “embaixada americana”, que aqui veio, para estudar o potencial mercadológico do nosso cinema. Nos anos que seguiram, nosso cinema ficou marcado pela expressão “cinema de cavação”, tal o estado de mendicância a que ficou submetido o cineasta brasileiro. Por volta de 1920, não só o Brasil, os cinemas nacionais começaram a sobreviver com a incomoda invasão do produto de consumo ligeiro, proveniente de hollywood. Hoje os cinemas nacionais (salvo raríssimas exceções, ainda, Índia e Nigéria), todas as demais são cinematografias exiladas em seu próprio território.
Alexandre, o grande, o macedônia, aluno de Aristóteles, queria levar a cultura “helênica”, para os seus domínios. Compare com hollywood. É significativo que a indústria do entretenimento está sempre entre as três primeiras do BIP dos EUA, ao lado da bélica e química. Alguma dúvida quanto ao consumo ligeiro!
Com urgência, sem nenhum entusiasmo, premido pelo atrito maquinar do rolimã, ando a confundir a sonoridade do vernáculo pátrio, com o balbuciar do mandarim. Enquanto vago de tela em tela assistindo filmes brasileiros em horários ofensivos e em raríssimas telas do ainda seu território.
Já que falastes de Plínio Marcos, ele dizia “no Brasil, artista americano morto, trabalha mais do que ator brasileiro vivo”. Pegue a imensa maioria dos filmes americanos, inclusive de gente respeitada como você, com propriedade os cita, e me explica qual a importância de se colocar pequenas cenas de corrupção. Preste atenção, toda vez que um americano, nos filmes americanos querem conseguir uma informação, eles colocam uma ceninha de corrupção, que nada acrescenta ao conteúdo no filme. No filme “O Homem da Máfia”, o personagem do Johnny Depp, diz: “Os Estados Unidos, não é uma nação, é um negócio”. (Usei o termo, NÃO, só porque é citação!).
Sempre fui e serei um entusiasta incentivador do seu desejo de fazer cinema. Como és homem das letras, sugiro uma espiada na escola egípcia e cubana de roteiro, mas antes, uma imersão pela luminosidade do Vale do Paraíba, onde por acaso, ainda existe alguns resquícios do velho Mazzaropi, é sempre salutar. E para sublinhar, aqui vai uma referência a Ridley Scott, no filme Cruzada, onde se lê uma frase esculpida na madeira da casa do antão ferreiro “Que homem é um homem que não muda o mundo ao seu redor”.
Aguardo com renovada esperança, ver surgir nesta megalópole chamada São José dos Campos, um indício de produção, fincado nos valores culturais deste chão, exercitando as ideias de que o cinema é a escrita da luz, e filmar com a palavra e escrever com a câmera, é um bom caminho para se produzir, arte, cinema!

Diogo Gomes dos Santos
Cineclubista

·         Fuera de Aqui! 1977, filme Boliviano de Jorge Sanjinés


quinta-feira, 24 de agosto de 2017

CINECLUBES BRASILEIROS, EM RÁPIDA PANORÂMICA

Este artigo foi escrito para o Diário de Cineclube, uma revista online, da Federação italiana de Cineclubes. 


CINECLUBES BRASILEIROS, EM RÁPIDA PANORÂMICA


               “Cineclubismo é antes de tudo movimento, movimento de gente, de ideias,                    de imagens e sonhos em favor da atividade cinematográfica”. (MANIFESTO                    de Rearticulação, 2003)


A memória historiográfica do Movimento Cineclubista Brasileiro, carece de melhor organização e sistematização. Dispersa, e em termos bibliográficos, são parcas e carentes de pesquisa e de publicações a respeito.  Depois da Segunda Rearticulação do Movimento Cineclubista Brasileiro, ocorrida no início do século XXI, de 21 a 23 de novembro de 2003[1], é que começaram a surgir significativos “Trabalho de Conclusão de Curso”, “Teses de doutorados”, livros e filmes, abordando diretamente esta atividade e sua forma de organização, reflexão e difusão da cultura cinematográfica e do audiovisual brasileiro.

Falando genericamente, vive na “Memória do Cinema Brasileiro”, uma história repleta de substantivos e adjetivos, que qualificam o cineclubismo como uma das mais importantes atividades da cultura cinematográfica nacional, principalmente na difusão da cultura cinematografia e na formação de profissionais do cinema.

Segundo Paulo César Saraceni, o Cinema Novo nasceu nos cineclubes, dentro do cineclube da FNFi (Faculdade Nacional de Filosofia do Rio de Janeiro). Da turma que ele frequentava saíram grandes diretores: “O Saulo Pereira de Melo, que era o presidente do cineclube, Miguel Borges, Marcos Faria”. O cineclube sempre fez parte do Movimento do Cinema Novo e foi dele que saiu a primeira turma, como afirma Maurice Capovilla: “nossa formação foi basicamente de cineclubista” (SIMONARD, 2006). No que pese a característica brasileira, o Cinema Novo teve forte influência do Neo realismo italiano e da Nouvelle Vague francesa.

 Registra-se no Brasil, já no início do século XX, em 1917, a experiência do Cineclube Paredão, na cidade do Rio de Janeiro, “com Adhemar Gonzaga, Álvaro Rocha, Paulo Vanderley, Luís Aranha, Hercolino Cascardo e Pedro Lima, formam um grupo de interessado em cinema, frequentando os cinemas Iris e Pátria e discutindo sobre filmes. Conforme Pery Ribas, reúnem-se na casa de Álvaro Rocha, que colecionava filmes, e lá assistiam sessões como um pequeno club de cinema” (RUDÁ, Andrade, 1962).

Os cineclubes surgiram na França, por inspiração do cineasta Louis Delluc e do crítico de arte, Ricciotto Canuto, italiano radicado na França. Em 1913 aconteceu a primeira sessão acompanhada de debate após a exibição de um filme, “A Comuna de Paris”, realizado pelo do grupo do Cineclube do Povo (MACEDO, Felipe, 2013).

O Chaplin Club foi criado em 1924 na cidade do Rio de Janeiro, com o intuito de defender o filme mudo em detrimento do sonoro. Editou 9 edições da revista O FAN. Em 1931 lançou o filme “Limite”, 1930 de Mário Peixoto, quando debateu e defendeu a integridade física da cópia do filme, contra a sanha do seu diretor que queria destruí-lo, “como foi o caso de Plínio Sussekind Rocha, lutando durante anos no importante trabalho de recuperação do filme brasileiro

Salvo a cópia e sem os negativos, posteriormente, Plínio Sussekind Rocha liderou uma saga em prol de recuperação do filme...”, (ISMAIL, 1978). que mesmo tendo sido exibido pouquíssimas vezes, transformou-se em mito do Cinema Brasileiro, não só pelas suas qualidades técnicas, artísticas, estéticas, linguísticas e narrativas, mas também, por ser apresentado em forma de libelo, em defesa do filme silencioso em detrimento do falado, como atesta Walter Lima Jr. (SIMONARD, 2006).

Atitude seminal foi também a do Clube de Cinema de São Paulo, fundado em 1940, quando a 07 de outubro de 1946, empreenderam a Fundação da Cinemateca Brasileira, liderados por Paulo Emílio Salles Gomes, Francisco Luiz de Almeida Salles, Rubem Biáfora, Múcio Porphyrio Ferreira, Benedito Junqueira Duarte, João de Araújo Nabuco, Lourival Gomes Machado e Tito Batini, impulsionando o meio cinematográfico em São Paulo. (CINEMATECA).

No Brasil o modelo dos Clubes de Cinema franceses permaneceu influente até meados da década de 50. Vias de regra, eles eram criados, em universidades de ciências humanas, tendo à frente, escritores, críticos de cinema, jornalistas, professoras, intelectuais liberais, que contribuíram decisivamente para a consolidação dos pilares do cinema nacional, cuja principal característica, foi à reflexão crítica da obra cinematográfica; a formação de profissionais da área, além da criação de instituições como as Cinematecas; Festivais e entidades da classe cinematográfica.

Posteriormente em 29 de outubro de 1956, Carlos Vieira liderou o grupo que fundou o “Centro de Cineclubes do Estado do Estado de São Paulo”, entidade convertida no primeiro órgão de representação do Movimento Cineclubista Brasileiro. O Centro realizou de 05 a 10 de fevereiro de 1959 a I Jornada de Cine-Clubes Brasileiros (O ESTADÃO, 1956), evento que a partir de 1962 passou a ser promovido pelo Conselho Nacional de Cineclubes [CNC], e assim permanece até os dias atuais.

O CNC representa o conjunto dos cineclubes brasileiros, foi fundado em 26 de maio de 1962. Em 1968, devido as suas atividades em defesa do filme nacional e da liberdade de expressão, foi fechado pela Ditadura Civil Militar instalada no país em 1964.

Sem suas entidades de representação, os cineclubes brasileiros foram reduzidos, e em todo o país, não passou de uma dúzia e mesmo sob a Ditadura Militar, em 1974, realiza-se semiclandestinamente, de 02 a 05 de fevereiro de 1974, a “VIII Jornada Nacional de Cineclubes”, na cidade de Curitiba, evento que reorganiza os cineclubes do país.

Atuando sob a Ditadura Militar, os cineclubes criaram em 1976 a Distribuidora Nacional de Filmes em 16 mm para Cineclubes [DINAFILME], com dois objetivos básicos: a) garantir a existência Nacional do Movimento Cineclubista, por meio da distribuição de filmes e b) criar as condições necessárias para a implantação de um circuito alternativo de exibição de filmes majoritariamente brasileiros, condizentes com a atuação dos cineclubes [CINECLUBE, 1983].

No período que se estende de 1974 até 1989, os cineclubes se engajaram na luta mais ampla da sociedade brasileira, contra o regime ditatorial. Filmes foram proibidos, cineclubistas e projetores presos, cineclubes foram fechados, a Dinafilme foi invadida pela Polícia Federal por duas vezes em 1º de março de 1978 e 31 de agosto de 1979, mais de 200 cópias de filmes foram presas, cineclubistas editaram jornais, revistas, saíram do país levando filmes proibidos para participar de festivais e depositar em cinematecas estrangeiras para garantir sua existência, e também entraram no país com filmes realizados por coletivos de produção cinematográficas das guerrilhas de El Salvador, Nicarágua, Peru, Vietnam, Eritréia, Cuba e filmes sobre as guerras de libertação nacional de Moçambique, Angola, Palestina, entre outros, muitos daqueles filmes foram exibidos clandestinamente e posteriormente, proibidos, presos. Cineclubistas sequestraram avião, entraram para a luta armada e outros foram exilados (SANTOS, 2017).

 Além de filmes oriundos das filmografias citadas acima, as programações dos cineclubes foram fortemente contempladas pelo cinema europeu, notadamente italianos, alemães, franceses e por filmes dos países do bloco socialista, principalmente os poloneses, tchecoslovacos soviéticos e russos. A Dinafilme não distribuiu filme norte-americano proveniente de Hollyood e quando tentou, sofreu pressão de alguns cineclubes que se recusaram a exibir filmes de John Ford (CADINA, S.D.).

Naquele mesmo período, os cineclubes, através da Dinfilme lançaram e chegaram a pagar filmes produzidos pelos Movimentos Sociais para o “Mercado Alternativo”, formado pelos Cineclubes, Sindicatos, Comunidades Eclesiais de Base ligados à Igreja Católica, Movimentos Sociais, Associações Atléticas estudantis, sedimentando as bases de um Circuito Nacional de filmes fortemente identificados com o que chamávamos na época de Terceiro Mundo.

No final da década de 197 e início da de 1980, veio a crise do petróleo, o fechamento dos cinemas de rua, o avanço e a consolidação do vídeo cassete, a redemocratização do país, a promulgação de uma nova Carta Magna, a eleição de um civil para a presidência da República e em consequências veio o refluxo dos Movimentos sociais, a queda do Muro de Berlim e o fechamento da Empresa Brasileira de Filmes – EMBRAFILME. Neste período, a liderança cineclubista de então, não conseguiu orientar a atividade cineclubista para atuar perante a nova realidade nacional e novamente os cineclubes entraram em um período de hibernação (NARRATIVA-CINECLUBISTA, 2008).

A atuação da atividade cineclubista brasileira quase sempre esteve à margem da sociedade de consumo e do aparelho estatal, sem apoio, num permanente e persistente ato de resistência as adversidades sócios culturais internas, combatendo a indiscriminada invasão do produto cinematográficos e televisivo de consumo ligeiro proveniente de Hollywood.

No Brasil, apesar de todas as contradições, os cineclubes são reconhecidos por Lei, como associações culturais, democráticas e sem finalidades lucrativas, em sua maioria, não se constituem juridicamente, basicamente por falta de apoio financeiro, tornando efêmeras suas atividades. Na sua estrutura, são representados no âmbito estadual por um único órgão de representação, prevista nos estatutos do também única, entidade nacional de representação, o Conselho Nacional de Cineclubes, membro filiado à Federação Internacional de Cineclubes.

Com a rearticulação, a questão da produção, passou a ser novo paradigma do cineclubismo brasileiros. Hoje o nome CINECLUBE virou grife, a imensa maioria dos canais de televisão abertos ou a cabo, tem uma sessão cineclube, empresas, escolas e movimentos sociais, ostentam programas com o nome cineclube, mas, entre todas as mudanças de uma sociedade que começou a vislumbrar mudanças sócio econômicas, culturais, comportamentais, impulsionadas pelas questões globais, a direção cineclubista, busca orientar os cineclubes sem considerar, que mesmo com as transformações operadas no cinema, sem o filme, a conjugação do verbo CINECLUBAR inviabiliza o ato principal do fazer cineclube.


Diogo Gomes dos Santos
Cineclubista, Cineasta, Historiador, foi presidente da Federação Paulista (1981 – 82) e do Conselho Nacional de Cineclubes, 1984 – 86, Administrador Geral da Dinafilme, associado fundador do Cineclube Bixiga, fundou e editou o jornal “ImageMovimento”, a revista “CineclubeBrasil”, roteirista e diretor de cinema.




Referências Bibliográficas Consultadas

ANDRADE, Rudá – Cadernos da Cinemateca nº 1, Cronologia da Cultura cinematográfica no Brasil, São Paulo, Fundação Cinemateca Brasileira, 1962.

SANTOS, Diogo Gomes, Imagens do Imaginário, Pop-Art, Cinema e Denúncia Social, Trabalho Conclusão Disciplina, Pós-Graduação, O Papel do Documentário do Nuevo Cinema Latino-Americano, PROLAM/USP, São Paulo, 2017.

SIMONARD, Pedro, A Geração do Cinema Novo, Para uma Antropologia do Cinema, Rio de Janeiro, Mauad X, 2006.

ISMAIL, Xavier, Sétima Arte: Um Culto Moderno, pp. 201, Perspectiva, São Paulo, 1978.

Disponível em www.diogo-dossantos.blogspot.com.brAcessado em 21/08/2017.

Disponível em: <http://www.academia.edu/6409070/Cinema_do_Povo_o_primeiro_cineclube> Acessado em 21.08.2017.
 
Disponível em: http://www.cinemateca.gov.br/pagina/a-cinemateca-historia Acessado em 21/o8/2017.

Jornal O Estadão, 28/05/1956, Documento do acervo Cineclubista Diogo Gomes dos Santos.

Boletim Cineclube, 1983, Documento do acervo Cineclubista Diogo Gomes dos Santos.

Boletim CADINA, 1982, Documento do acervo Cineclubista Diogo Gomes dos Santos.

Disponível em: 






[1] - A reorganização do Movimento Cineclubes Brasileiro, estava previsto no programa de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sua REARTICULAÇÃO tem início em São Paulo em torno da proposta de exibição de filmes em São Paulo, proposta pelo autor e posteriormente se efetiva com a ida de Gilberto Gil para o Ministério da Cultura, Orlando Senna para a Secretaria do Audiovisual e Leopoldo Nunes para chefia de Gabinete de Orlando Senna.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

55 ANOS DO CNC

Este texto embora não tenha um caráter acadêmico, foi escrito em forma de reportagem, para comemorar uma data pouco conhecida dos cineclubistas brasileiros. Contribuições serão sempre muito bem-vindas. 


HÁ 55 ANOS ERA FUNDADO O CONSELHO NACIONAL DE CINECLUBES

A fundação do Conselho Nacional de Cineclubes – CNC -, veio concretizar um sonho que vinha sendo acalentado palas atividades que estavam sendo desenvolvidas no campo da difusão cinematográfica no país,  desde a década de 1950, e pela convicção de Carlos Vieira, abnegado militante do cineclubismo, que era influenciado pelas ações realizadas pela igreja católica, lideradas pelo então Arcebispo e depois Cardeal Dom Helder Câmara, primeiro a promover em nosso país as “Jornadas Católica de Cinema[1]”, no que pese as contribuições de Pe. Massote, Pe. Legert e dos militantes católicos Humberto Didenot, Cosme Alves Neto, entre outros.

A terceira Jornada de Cineclubes Brasileiros[2] realizada no Rio de Janeiro deliberou pela formação de uma Comissão Nacional, com o intuito de aprofundar o debate em torno das funções e necessidade de se criar uma entidade de representação nacional dos cineclubes.

Naquela altura dos acontecimentos, 1961, já existia três Federações Estaduais de Cineclubes: Minas Gerais; Rio Grande do Sul; Rio de Janeiro, além do Centro de Cine-Clubes de São Paulo[3], que representava os cineclubes do Estado e vinha exercendo na prática a coordenação nacional das atividades dos Clubes de Cinema e/ou cineclubes[4].

A discussão em torno da necessidade da criação de uma entidade nacional já tinha sido agendada, discutida, protelada, a ponto da deliberação[5] da terceira Jornada, soar, até certo ponto, como uma espécie de ultimato para que a questão fosse finalmente resolvida, uma vez que a Jornada anterior, decidiu adiar a criação da entidade nacional em função da pouca participação nos debates, adiando para o ano seguinte a criação da entidade nacional.


Vários nomes foram objeto de discussão: Federação Nacional de Cineclubes, Associação, União de Cineclubes Brasileiros e finalmente Conselho Nacional de Cineclubes – CNC -, esta última nomenclatura surgiu de uma proposição feita em forma de moção do Cineclube de Nova Friburgo/RJ, apoiada pelo Cineclube do GEC da UME e do Clube de Cinema do Rio de Janeiro. O Cineclube do GEC era na época, era representado por Cosme Alves Neto, cineclubista vindo para o Rio de janeiro de Belém do Pará e cujo apoio ao nome foi determinante. Posteriormente, Cosme se converteu numa das personalidades mais importantes, admirada, respeita, querida e amada, pelos amantes do cinema, por seus relevantes serviços prestados ao Cineclubismo e ao Cinema Brasileiro, principalmente atuando na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM, Cosme era de uma formação católica e foi membro do Partido Comunista Brasileiro. O outro defensor da moção foi Walter Pontes, que se tornou o primeiro Diretor no cargo de: Assessoria Geral da primeira Diretoria Executiva do Conselho Nacional de Cineclubes e que para a realização da III Jornada, foi personagem fundamental na organização daquele encontro.

A fundação do Conselho Nacional de Cineclubes foi precedida de grande cobertura jornalística, principalmente a de São Paulo, Porto Alegre e do Rio de Janeiro. O jornal O Estado de São Paulo anuncia na edição do dia 25 de maio de 1962: “Está marcado para amanhã às 14 horas, na sede da Cinemateca Brasileira, no Parque do Ibirapuera, Portão 5, uma assembléia geral, convocada pelo Centro dos Cine-Clubes do Estado, de quem é presidente o Sr. Carlos Vieira”, visando a fundação do Conselho Nacional de Cineclubes, que coordenará todas as atividades dos cineclubes do país.


 A matéria do jornal informa que estavam presente as Federações de cine-clubes de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro. A edição do dia 02/06/62 do jornal O DIA de Porto Alegre, anuncia a presença de: Carmem Gomes, Federação de Cineclubes de Minas Gerais; Walter Pontes, Federação de Cineclubes do Rio de Janeiro; Carlos Vieira do Centro de Cine-Clubes; Olavo Macedo de Freitas, Federação Gaúcha de Cineclubes; Rudá de Andrade, Maurice Capovilla, Paulo Emílio Salles Gomes e Ilka B. Laurito, da Cinemateca Brasileira; Maurice A. Legard, Clube de Cinema de Santos; Edgar Carone, Clube de Cinema de Botucatu, Ailton Oliveira e Roberto Cimino, Clube de Cinema de Marília; Roberto Durço, Clube Avareense de Cinema; P. José López, SP, Cineclube 3 de Dezembro; Heitor Contrucci, Assessor do Centro de Cineclubes de São Paulo; Pe. E. Massote, Assessor da Federação de Cineclubes de Minas Gerais e o Foto Cineclube Bandeirantes de São Paulo.

O Conselho Nacional de Cineclubes foi fundado no dia 26 de maio de 1962. A primeira diretoria executiva ficou assim constituída: Presidente: Carlos Vieira (SP); Diretor da Assessoria Geral; Walter Pontes (GBA – Estado da Guanabara, hoje Estado do Rio de janeiro), Diretora da Assessoria Cultural; Carmem Gomes (MG); Diretor da Assessoria Fiscal; Olavo Macedo de Freitas (RS).  O registro foi feito no 8º Cartório de Registro de Títulos e Documentos, 3º ofício, registrado sob nº 9619, livro de nº 5 de registro de pessoas jurídicas, no dia 13 de julho de 1963, situado na cidade de São Paulo.

O Jornal A Folha de São Paulo, edição do dia 28 de maio de 1962 anuncia também que a assembleia, após a aprovação dos estatutos elegeu a Diretoria Executiva e “foi proposto um voto de aplausos ao filme O Pagador de Promessas e outro ao Centro Popular de Cultura da UNE, pela realização do filme Cinco Vezes Favela[6]. (Grifos do autor)

Na edição de 03/07/62 do jornal “O Estado de São Paulo”, refere-se ao Conselho como sendo um “organismo destinado a congregar as Federações Brasileiras de Cineclubes... deverá coordenar todas as reivindicações cineclubistas, estimular a união no movimento de cultura cinematográfica e organizar os próximos congressos... além de representar o Brasil na Federação Internacional de Cineclubes...” Segundo Carlos vieira, primeiro presidente da entidade, “a constituição do Conselho representa um certo amadurecimento na cultura cinematográfica brasileira, que começa a se desenvolver do Norte ao Sul do país, principalmente graças aos esforços estudantis e clericais”. 

A Cinemateca Brasileira que vinha ajudando nas atividades dos cineclubes reforça a linha de atuação definida pelo Conselho de apoio à difusão da cultura cinematográfica, como sendo de absoluta imparcialidade, apoiando todos os movimentos existentes, as nascentes e esperam ampliar a circulação dos filmes e documentos pelo país.
O primeiro documento oficial da nova entidade foi um Ofício para o Ministro da Educação e Cultura, Sr. Darcy Ribeiro, hipotecando-lhe irrestrita solidariedade pelo plano de Emergência em favor da cultura nacional. O ofício do CNC, salientava que as Federações de Cineclubes existentes, já tinham produzido “recursos audiovisual e construção de material didático”, sobre “Cinema e Educação, Cinema e Infância”, e vinham “oferecer colaboração para efetivação de iniciativa edificante para o país”.

A primeira Assembleia Geral Ordinária do Conselho foi realizada nos dias 23 e 24 de janeiro de 63, no Clube de Cinema de Santos, constando da pauta os preparativos para a IV Jornada Nacional de Cineclubes[7] e a realização de uma mesa redonda em homenagem ao cinema baiano, com a presença do produtor Rex Schindler e do crítico de cinema Walter da Silveira do Clube de Cinema da Bahia. Esta iniciativa se converteu no primeiro “Estágio para Dirigentes Cineclubistas do País”[8].

Os cineclubistas de hoje podem achar estranho o fato da assembleia da terceira Jornada de Cineclubes Brasileiros ter decidido pela direção da entidade nacional e de fato sua fundação ocorreu em uma plenária convocada pelo Centro dos Cine-Clubs do Estado de São Paulo, cuja plenária foi constituída pelas diretorias das Federações Estaduais e não pelos cineclubes, como é hoje.

Para melhor entendimento sobre a natureza do Conselho Nacional de Cineclubes – CNC -, o Artigo 1º do Estatuto diz: “As entidades federativas ou associativas de cine-clubes do Brasil afirmam ser de sua vontade de unirem-se em vista de contribuir para o desenvolvimento do estudo e da difusão da arte cinematográfica no país, para o que constituem um CONSELHO NACIONAL DE CINE-CLUBES para maior colaboração e apoio entre si” e o Artigo 3º diz que o Conselho “... tendo por objetivo o cinema de todas as suas formas de difusão cultural e artística...”. A assembleia do Conselho composta pelas entidades de representação e cada entidade tinha direito a quantidade de votos que constituiu a mesma, limitada ao máximo de cinco votos.

Lembremos que a Jornada era um evento do Conselho e não reunia a assembleia. Era uma espécie de fórum, de um grande Conselho, cujas deliberações poderiam ou não serem implementadas.

É somente depois da realização da VIII Jornada Nacional de Cineclubes, realizada em 1974, de reorganização do CNC que os cineclubes passam a ser a espinhal dorsal do Movimento, cabendo a eles, reunidos em Assembleias, instância máxima de representação e deliberação, tomar as decisões em favor do Cineclubismo Brasileiro.

A questão da verticalização ganha novos contornos, se aprofunda, o CNC permanece sendo a única entidade de representação nacional, continua reconhecendo somente uma entidade de representação por Estado e impede que membros de um mesmo cineclube possa concorrer em chapas diferentes, Artigo 36º, § Inciso - 3º e Parágrafo Único.


Para o bem e para o mal, o CNC tem a partir dos seus estatutos, um escopo organizativo dimensionando a natureza de suas atividades, focado na cultura cinematográfica e do audiovisual. É desde sua origem membro filiado da Federação Internacional de Cineclubes, já ocupou por várias vezes o Secretariado para América Latina e o Caribe e há dois mantados seguidos sua presidência é ocupada por um brasileiro.

Nestes 55 anos de atividades a entidade nacional foi protagonista de momentos singulares na construção de uma cultura cineclubista, que em alguns embates é portadora dos mais relevantes serviços prestados ao desenvolvimento do Cinema Brasileiro e a cultura sócio cultural do país. Sua importância é merecedora de estudos mais aprofundados, cuja contribuição aguarda registro de cultural material e imaterial brasileira.

Diogo Gomes dos Santos
Cineclubista, cineasta, historiador,





[1] - Jornal O Estado de São Paulo”, Suplemento Literário, 15/12/1956
[2] - Assim foram denominadas as três primeiras Jornadas, somente depois da quarta Jornada, após a criação do CNC é que as Jornadas ganharam a nomenclatura de “Nacional de Cineclubes” (Nota do autor)
[3] - Desde o primeiro estatuto do Conselho Nacional de Cineclubes, que se determinou aceitar somente uma entidade federativa por Estado. Na época o CNC aceitou o Centro de Cine-Clubs de São Paulo como sua filiada, entendo exercer ela as funções de uma Federação. Somente depois da VIII Jornada Nacional e com as mudanças no Estatuto do CNC, admitiu a filiação das Comissões Pró-Federação, que por ventura viessem a se formar nos Estados. O reconhecimento de entidade de representação estadual se dá pelo Estatuto e não pela nomenclatura. (Nota do Autor).
[4] - No Brasil, em suas cinco primeiras décadas, os cineclubes seguiram a tradição francesa dos Clubes de Cinema, inclusive no uso do nome, a predominância na nomenclatura de cineclube em detrimento de Clube de Cinema, acompanhou um novo paradigma nas atitudes dos cineclubes, surgido principalmente depois da segunda guerra mundial.
[5] - As decisões das Jornadas de Cineclubes Brasileiros, não tinham caráter deliberativos, justamente pela ausência de uma entidade com legitimidade de representação. Elas tinham mais um caráter de Fórum ou de Conselho Consultivo. Quem encaminhava informalmente estas deliberações eram as diretorias das Federações Estaduais.
[6] - Todos os cinco diretores do filme “Cinco Vezes Favela”, eram cineclubistas (Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Marcos Farias e Miguel Borges).
[7] - Jornada Nacional de Cineclubes, nome que passou a vigorar a partir de então até os dias atuais. (Nota do autor)
[8] - Jornal A Tarde, 1965.