quarta-feira, 31 de janeiro de 2018


Cineclube X Público  -  2º Artigo para DIARI DI CINECLUB

“Cineclube é a casa do cinema, espaço de ver, ouvir e discutir o filme, lugar onde o filme e seus personagens, vivem eternamente na memória dos seus expectadores”.
Diogo Gomes dos Santos[1]

Premissa Cineclubista
Uma das místicas que ainda permanece viva nas atividades dos cineclubes brasileiros, é sua relação com o público. Até o final da década de 1980, falou-se basicamente em formação e organização do público. O ato de ver o filme, sempre foi para o cineclubismo, o cerne do aprendizado, quando não existia o lugar da formação escolar. Mesmo depois do advento da instituição de ensino, o vazio deu lugar ao olhar e a subsequente reação crítica, proporcionada pelo debate, após a sessões dos filmes, creditou aos cineclubes, singular lugar, em todas as culturas, onde a expressão fílmica se fez presente.
Dessa perspectiva didática, pedagógica, reverberaram metodologicamente as ações cineclubistas no Brasil, que poderíamos nominar: cineclubismo utópico. Almejar que o público pudesse participar do processo criativo do principal produto da indústria cinematográfica, o filme, e uma vez, organizado, engajasse na luta maior da sociedade brasileira da época, para derrubar o Regime Militar.

Cineclube Digital - Diadema, SP

Vitoriosa esta última proposição narrativa, seu intento fora precedido de programas de exibição, lançamento e debate dos filmes sobre a situação do país, nos cineclubes e nas organizações da sociedade civil, cujo temas denunciavam diretamente o regime, como foram as jornadas populares contra a “Carestia”, a “Campanha pela Anistia, Ampla, Geral e Irrestrita”, as denúncias contra a devastação da Amazônia, as lutas operárias, e a “Campanha pela recuperação dos filmes que foram presos pela Polícia Federal, quando esta, por duas vezes, a sede da distribuidora dos cineclubes foi invadida e sequestrados mais de 200 filmes[2].

Sala da Dinafilme, SP


Contexto da exibição cinematografia no Brasil

No Brasil, na primeira década do século XX, o cinema floresceu rapidamente, o comércio se estabeleceu e já por volta de 1909[3], o país produzia mais de 100 filmes por ano. No entanto, em 1911 chega ao Brasil a “Embaixada Americana[4]”, grupo de empresários que aqui vieram para estudar as potencialidades do nosso mercado de cinematográfico. Por volta de 1920, consolida-se o sistema de distribuição, importação e produção do cinema norte-americano no Brasil, situação que perdura até os dias atuais, uma situação de “ocupação”[5] do filme de Hollywood sobre o mercado exibidor brasileiro.


Os Cineclubes no contexto da Contemporaneidade do audiovisual
Até maio de 2014, o Brasil era, em termos individuais, o segundo mercado do filme estrangeiro, notadamente o norte-americano, em termos de ingressos vendidos. Primazia, hoje, pertencente a China.

Atualmente o mercado de salas de cinema no Brasil, segundo a Agência Nacional de Cinema - ANCINE[6] -, é da ordem de 3.000 mil salas comerciais. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas – IBGE -, último senso de 2016, o Brasil tem 207,6 milhões de habitantes, 5.570 municípios, e em apenas 10,4% deles, tem salas de cinema[7]. Em termo gerais, existe no Brasil, uma sala de cinema para cada 69.200 habitantes. Dos 26 Estados e Um Distrito Federal, 1/3 (um terço), delas estão localizadas no Estado de São Paulo, que, por sua vez, é o maior produtor de filmes, seguidos pelos Estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Pernambuco.

A recente produção de filmes de longa-metragem[8] no país, gira em torno de 120 por ano, todos financiados por meio do mecanismo da Lei do Audiovisual, verba pública oriunda de renúncia fiscal. Desses, menos de 20% são lançados comercialmente, atingindo uma média sempre variável entre 15 a 20% das bilheterias.

Por outro lado, é incerto o número de cineclubes no país. Filiados ao Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros, são por volta de 540, diz Eduardo Paes Aguiar, presidente do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros - CNCB. Mas se ampliar e contabilizar as atividades que se auto denominam cineclube, numa consulta ao Google, estes números ultrapassam as 3.000 mil salas comerciais de cinema.

A Antropia Cineclubista
Com a rearticulação dos cineclubes em 2003 e a cizânia promovida em 2004, durante a realização da 24ª Jornada Nacional, pela liderança que optou pela reorganização do Movimento, e conquistou a direção nacional do Movimento Cineclubista, em detrimento da proposição de rearticular os Cineclubes[9], como prendeu a posição excluída, nos dias atuais é possível constatar que a proposta vencedora em 2004, foi a que mais contabilizou subtrações. Com ela, os cineclubes ainda não se fizeram presente na vida cultura do cinema, que dirá do país, envolto que ficaram à mercê da pauta aventada pelo Estado. Os “conquistadores” assim como encontraram grupos produzindo, logo se apressaram a classifica-los de cineclubes, num gesto de copiar e colar, sem levar em discussão a natureza daquela atividade. Tê-la como aliada foi suficiente para incorporá-la, empolgados pelo acesso, mobilidade, baixo custo e pelo “glamour” da produção, imaginando, talvez, ser, as novas tecnologias, “a democratização dos meios de produção”, ah velho Karl, quanta ironia. Na prática, esta nova ferramenta, disponível e utilizada sem o real entendimento dos seus sentidos, atrofiou a ação cineclubista, encurralando-a na forma de organização individual, e não mais coletivo da atividade dos cineclubes.

A resultante é uma produção desprovida essencialmente de tratamento narrativo, linguístico e estético. Os cineclubistas adeptos dessa propositura, parecem dispostos a demoverem o “abnegado” Ed Wood, da primazia de seu lugar ao sol cinematográfico. O objeto filme não foi apropriado por eles, nem como criação de fatos estéticos e nem como gesto, ciência de fatos científicos.


Neste vai da valsa do copiar e colar, surge outra palavra de ordem: “Os filmes são feitos para serem vistos[10]”. A sugestão em profusão de tudo contemplar, desconsidera, nestes tempos virtuais, o processo antropofágico, tão caro aos modernistas brasileiros, o filme como meio de expressão contemporânea e a tela como fator de existência do filme. As rupturas sofridas pelo cinema, ainda não foram suficientes para ignorar a tela, como sustentáculo da indústria cinematográfica e fator de unidade do Cinema Brasileiro.  São permanências como estas, que apontam para o futuro do audiovisual. Prematuro será não considera-las, sob pena do vazio prevalecer sobre a ação. Algo parecido com o que acontece com o Movimento Cineclubista Brasileiro nestes tempos sombrios.

Tendências & Resultantes
O termo “cineuclube[11]”, já começa a ser proferido como forma de organização cineclubista, também para os que balbuciam ser esta, uma nova tendência do cineclubismo mundial, o cineclube como objeto pessoal. É algo como se fosse uma experiência que está sendo desenvolvida em função de futura tese ou, o que é mais comum, um trampolim para uma profissionalização qualificada, num campo mais de satisfação pessoal, e, quiçá, profissional.

  Cineclube Atlântico Negro, RJ

Às vésperas de realizar sua 30ª Jornada Nacional de Cineclubes (prevista para os dias 15, 16 e 17/12.17), uma saga que teve início em 1959, os cineclubes brasileiros, debatem a constituição de uma nova forma de organização estatutária, onde está questão aparece, desfocada, certamente [12].

Nesta última década da reorganização (2005/2010) veio à baila, a discussão um tanto quanto atrasada dos “direitos do público”, demanda explicitada pela Federation Internationale des Cine-clubs -  FICC -, na “Carta de Tabor[13], em 1986”. Este debate por aqui, parece ter proporcionado mais equívocos do que esclarecimentos. A palavra de ordem do CNCB é: “Nós Somos o Público[14]”. O que poderia ser uma interpretação simples da expressão, da forma como está redigida, fica a dúvida de quem é ou quem seria o “Nós”, quando questionada, não chega a ser subsidiada pelos os que a escreveram.


Campanha do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros - CNCB -, contra a ameação de extinção do Ministério da cultura, aventada pelo governo Temer.

O contexto político social brasileiro atual, é da mais profunda desordem. Crise das instituições públicas, todas desacreditadas, acusadas de envolvimento com um Golpe de Estado Parlamentar, efetivado em concluiu com a Suprema Corte, acobertada pela mídia, na prática, acompanhado de retrocessos sociais, ataques as liberdades religiosas e artísticas, embora o Estado seja laico, refluxo dos Movimentos Sociais, entrega do patrimônio público ao capital estrangeiro, avanço da extrema direita, enquanto muitos advogam, estar em vigor o “Estado de Exceção[15]”.

Nestas circunstâncias, o papel de resistência histórica dos cineclubes, diante das adversidades, sejam elas quais forem, caíram no vazio. O Movimento não produziu absolutamente nada, embora as manifestações nas redes sociais, se limitam aos “Curtir”, “Comentar” e “Compartilhar”, advogando com isso que estão do lado oposto do regime.

O que impediu e ainda impede os cineclubistas que conquistaram a direção da entidade nacional em 2004 a se apropriarem do Movimento Cineclubista Brasileiro foi o peso da história, que mesmo não o tendo como como problema histórico, relação entre o presente e aquele passado.

É ensurdecedor o silêncio social, diante do desmonte do atual governo, das conquistas alcançadas na última década. A distância do que se produz no campo cientifico, acadêmico e intelectual, com as camadas populares, é bastante expressivo, tanto em termos de contribuição para a consolidação da identidade nacional, bem como para a compreensão social. É uma batalha que está sendo perdida no campo da palavra. Genericamente falando, a situação do país guarda fortes parentescos com as estatísticas referentes ao cinema, ou seja: Algo em torno de 80 a 85% da população brasileira, não tem acesso ao cinema e o mesmo, genericamente se pode dizer com relação aos bens sócios culturais.

Este cenário “extraordinário[16]”, e ao mesmo tempo caótico, pode se configurar em momento especial, vislumbrando outras definições do que pode vir a ser, os caminhos que os cineclubes brasileiros a curto e médio prazo, podem trilhar. Evidente que uma eventual vitória do “Centro-Esquerda”, alicerçada na candidatura de Luís Inácio Lula da Silva, apontará, de um lado, para a retomada da profissionalização individualizada prevista em Lei, e já esboçada nos governos do Partidos dos Trabalhadores - PT ou para um misto de estatização, com algumas válvulas de independência voluntária, subsidiada pelo mecenato público e privado, sempre disposto e muito discretamente, apoiar iniciativas como as dos cineclubes.

Debate CineCurtasPresidenta, SP

Creio não ser essencial, este ou aquele  governo se para a atividade dos cineclubes, o filme permanecer como objeto principal da sua atitude.





[2] - Boletim CINECLUBE, órgão do CNC, Arquivo Cineclubista do Autor
[3] A Bela Época do Cinema Brasileiro, ARAÚJO, Vicente de Paula, Perspectiva, 1976, SP
[4] A Fascinante Aventura do Cinema Brasileiro, SIOUZA, Carlos Roberto, Cia das Letras, 2004?
[5] Termo cunha pelo crítico, Celso Sabadin, quando do lançamento do filme, “Saga Crepúsculo: Eclipse”, com 692, cópias. Em seguida o filme “Rio”, desenho animado dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha, teve lançamento mundial no Brasil com 1.000 cópias, ocupando 1/3 das salas do país.
[6] Agência Nacional de Cinema – ANCINE, www.ancine.gov.br
[7] Comerciais e não comerciais
[8] Filmes financiado com verba pública
[9] - Grifos do autor (Reorganização do Conselho Nacional, que não ocorreu e não rearticulou os cineclubes, para depois reorganizar a entidade nacional, o que na prática terminou por acontecer, daí o hiato entre ambos)
[10] PIMENTEL, João Batista, rodapé de sua página de E-mail.
[11] JESUS, Clementino de, Cineclube “Atlântico negro”, RJ, organização pessoal, do eu sozinho.
[12] - Ver proposta de mudança dos Estatutos, oferecida pelo cineclubista Arthur Leandro de Belém/PA.
[13] Carta de Tabor, edição da Federação Portuguesa de Cineclubes.
[14] - A expressão está grafada nas publicações virtuais da entidade nacional, Sitie, Blog, Facebook, etc.
[15] - Posição defendida por várias instituições, juristas e parte da mídia internacional que temos acesso.
[16] - http://www.ebc.com.br/cultura/2014/09/cineastas-debatem-importancia-da-formacao-de-cineclubes-nas-escolas

sábado, 4 de novembro de 2017

CINECLUBES BRASILEIROS, EM RÁPIDA PANORÂMICA



Este artigo foi escrito para o DIARI DI CINECLU, de Roma, oferecendo uma rápida panorâmica sobre o cineclubismo brasileiro. A versão em italiano pode ser lida em: http://www.cineclubroma.it/images/Diari_di_Cineclub/edizione/diaricineclub_055.pdf


CINECLUBES BRASILEIROS, EM RÁPIDA PANORÂMICA


“Cineclubismo é antes de tudo movimento, movimento de gente, de ideias, de imagens e sonhos em favor da atividade cinematográfica”. (MANIFESTO de Rearticulação, 2003)


A memória historiográfica do Movimento Cineclubista Brasileiro, carece de melhor organização e sistematização. Dispersa, e em termos bibliográficos, são parcas e carentes de pesquisa e de publicações a respeito.  Depois da Segunda Rearticulação do Movimento Cineclubista Brasileiro, ocorrida no início do século XXI, de 21 a 23 de novembro de 2003[1], é que começaram a surgir significativos “Trabalho de Conclusão de Curso”, “Teses de doutorados”, livros e filmes, abordando diretamente esta atividade e sua forma de organização, reflexão e difusão da cultura cinematográfica e do audiovisual brasileiro.



Falando genericamente, vive na “Memória do Cinema Brasileiro”, uma história repleta de substantivos e adjetivos, que qualificam o cineclubismo como uma das mais importantes atividades da cultura cinematográfica nacional, principalmente na difusão da cultura cinematografia e na formação de profissionais do cinema.

Segundo Paulo César Saraceni, o Cinema Novo nasceu nos cineclubes, dentro do cineclube da FNFi (Faculdade Nacional de Filosofia do Rio de Janeiro). Da turma que ele frequentava saíram grandes diretores: “O Saulo Pereira de Melo, que era o presidente do cineclube, Miguel Borges, Marcos Faria”. O cineclube sempre fez parte do Movimento do Cinema Novo e foi dele que saiu a primeira turma, como afirma Maurice Capovilla: “nossa formação foi basicamente de cineclubista” (SIMONARD, 2006). No que pese a característica brasileira, o Cinema Novo teve forte influência do Neo realismo italiano e da Nouvelle Vague francesa.

 Registra-se no Brasil, já no início do século XX, em 1917, a experiência do Cineclube Paredão, na cidade do Rio de Janeiro, “com Adhemar Gonzaga, Álvaro Rocha, Paulo Vanderley, Luís Aranha, Hercolino Cascardo e Pedro Lima, formam um grupo de interessado em cinema, frequentando os cinemas Iris e Pátria e discutindo sobre filmes. Conforme Pery Ribas, reúnem-se na casa de Álvaro Rocha, que colecionava filmes, e lá assistiam sessões como um pequeno club de cinema” (RUDÁ, Andrade, 1962).



Os cineclubes surgiram na França, por inspiração do cineasta Louis Delluc e do crítico de arte, Ricciotto Canuto, italiano radicado na França. Em 1913 aconteceu a primeira sessão acompanhada de debate após a exibição de um filme, “A Comuna de Paris”, realizado pelo do grupo do Cineclube do Povo (MACEDO, Felipe, 2013).

O Chaplin Club foi criado em 1924 na cidade do Rio de Janeiro, com o intuito de defender o filme mudo em detrimento do sonoro. Editou 9 edições da revista O FAN. Em 1931 lançou o filme “Limite”, 1930 de Mário Peixoto, quando debateu e defendeu a integridade física da cópia do filme, contra a sanha do seu diretor que queria destruí-lo. Salvo a cópia e sem os negativos, posteriormente, “como foi o caso de Plínio Sussekind Rocha, lutando durante anos no importante trabalho de recuperação do filme”  (ISMAIL, 1978), que mesmo tendo sido exibido pouquíssimas vezes, transformou-se em mito do Cinema Brasileiro, não só pelas suas qualidades técnicas, artísticas, estéticas, linguísticas e narrativas, mas também, por ser apresentado em forma de libelo, em defesa do filme silencioso em detrimento do falado, como atesta Walter Lima Jr. (SIMONARD, 2006).

Atitude seminal foi também a do Clube de Cinema de São Paulo, fundado em 1940, quando a 07 de outubro de 1946, empreenderam a Fundação da Cinemateca Brasileira, liderados por Paulo Emílio Salles Gomes, Francisco Luiz de Almeida Salles, Rubem Biáfora, Múcio Porphyrio Ferreira, Benedito Junqueira Duarte, João de Araújo Nabuco, Lourival Gomes Machado e Tito Batini, impulsionando o meio cinematográfico em São Paulo. (CINEMATECA).

No Brasil o modelo dos Clubes de Cinema franceses permaneceu influente até meados da década de 50. Vias de regra, eles eram criados, em universidades de ciências humanas, tendo à frente, escritores, críticos de cinema, jornalistas, professoras, intelectuais liberais, que contribuíram decisivamente para a consolidação dos pilares do cinema nacional, cuja principal característica, foi à reflexão crítica da obra cinematográfica; a formação de profissionais da área, além da criação de instituições como as Cinematecas; Festivais e entidades da classe cinematográfica.

Posteriormente em 29 de outubro de 1956, Carlos Vieira liderou o grupo que fundou o “Centro de Cineclubes do Estado do Estado de São Paulo”, entidade convertida no primeiro órgão de representação do Movimento Cineclubista Brasileiro. O Centro realizou de 05 a 10 de fevereiro de 1959 a I Jornada de Cine-Clubes Brasileiros (O ESTADÃO, 1956), evento que a partir de 1962 passou a ser promovido pelo Conselho Nacional de Cineclubes [CNC], e assim permanece até os dias atuais.

O CNC representa o conjunto dos cineclubes brasileiros, foi fundado em 26 de maio de 1962. Em 1968, devido as suas atividades em defesa do filme nacional e da liberdade de expressão, foi fechado pela Ditadura Civil Militar instalada no país em 1964.
Sem suas entidades de representação, os cineclubes brasileiros foram reduzidos, e em todo o país, não passou de uma dúzia e mesmo sob a Ditadura Militar, em 1974, realiza-se semiclandestinamente, de 02 a 05 de fevereiro de 1974, a “VIII Jornada Nacional de Cineclubes”, na cidade de Curitiba, evento que reorganiza os cineclubes do país.

Atuando sob a Ditadura Militar, os cineclubes criaram em 1976 a Distribuidora Nacional de Filmes em 16 mm para Cineclubes [DINAFILME], com dois objetivos básicos: a) garantir a existência Nacional do Movimento Cineclubista, por meio da distribuição de filmes e b) criar as condições necessárias para a implantação de um circuito alternativo de exibição de filmes majoritariamente brasileiros, condizentes com a atuação dos cineclubes [CINECLUBE, 1983].

No período que se estende de 1974 até 1989, os cineclubes se engajaram na luta mais ampla da sociedade brasileira, contra o regime ditatorial. Filmes foram proibidos, cineclubistas e projetores presos, cineclubes foram fechados, a Dinafilme foi invadida pela Polícia Federal por duas vezes em 1º de março de 1978 e 31 de agosto de 1979, mais de 200 cópias de filmes foram presas, cineclubistas editaram jornais, revistas, saíram do país levando filmes proibidos para participar de festivais e depositar em cinematecas estrangeiras para garantir sua existência, e também entraram no país com filmes realizados por coletivos de produção cinematográficas das guerrilhas de El Salvador, Nicarágua, Peru, Vietnam, Eritréia, Cuba e filmes sobre as guerras de libertação nacional de Moçambique, Angola, Palestina, entre outros, muitos daqueles filmes foram exibidos clandestinamente e posteriormente, proibidos, presos. Cineclubistas sequestraram avião, entraram para a luta armada e outros foram exilados.

Além de filmes oriundos das filmografias citadas acima, as programações dos cineclubes foram fortemente contempladas pelo cinema europeu, notadamente italianos, alemães, franceses e por filmes dos países do bloco socialista, principalmente os poloneses, tchecoslovacos soviéticos e russos. A Dinafilme não distribuiu filme norte-americano proveniente de Hollyood e quando tentou, sofreu pressão de alguns cineclubes que se recusaram a exibir filmes de John Ford[2] (CADINA, S.D.).

Naquele mesmo período, os cineclubes, através da Dinfilme lançaram e chegaram a pagar filmes produzidos pelos Movimentos Sociais para o “Mercado Alternativo”, formado pelos Cineclubes, Sindicatos, Comunidades Eclesiais de Base ligados à Igreja Católica, Movimentos Sociais, Associações Atléticas estudantis, sedimentando as bases de um Circuito Nacional de filmes fortemente identificados com o que chamávamos na época de Terceiro Mundo.


No final da década de 1970 e início da de 1980, veio a crise do petróleo, o fechamento dos cinemas de rua, o avanço e a consolidação do vídeo cassete, a redemocratização do país, a promulgação de uma nova Carta Magna, a eleição de um civil para a presidência da República e em consequências veio o refluxo dos Movimentos sociais, a queda do Muro de Berlim e o fechamento da Empresa Brasileira de Filmes – EMBRAFILME. Neste período, a liderança cineclubista de então, não conseguiu orientar a atividade cineclubista para atuar perante a nova realidade nacional e novamente os cineclubes entraram em um período de hibernação (NARRATIVA-CINECLUBISTA, 2008).

A atuação da atividade cineclubista brasileira quase sempre esteve à margem da sociedade de consumo e do aparelho estatal, sem apoio, num permanente e persistente ato de resistência as adversidades sócios culturais internas, combatendo a indiscriminada invasão do produto cinematográficos e televisivo de consumo ligeiro proveniente de Hollywood.

No Brasil, apesar de todas as contradições, os cineclubes são reconhecidos por Lei, como associações culturais, democráticas e sem finalidades lucrativas, em sua maioria, não se constituem juridicamente, basicamente por falta de apoio financeiro, tornando efêmeras suas atividades. Na sua estrutura, são representados no âmbito estadual por um único órgão de representação, prevista nos estatutos do também única, entidade nacional de representação, o Conselho Nacional de Cineclubes, membro filiado à Federação Internacional de Cineclubes.

Com o advento do governo Luiz Inácio Lula da Silva e de ações de alguns cineclubistas, as atividades do Fórum Social Mundial, a transição do cinema analógico para as novas tecnologias digitais, os cineclubes se rearticularam e de 21 a 23 de novembro de 2003, realizaram a XIV Jornada Nacional de Cineclubes. Hoje os cineclubes estão presentes em todos os 26 Estados e no Distrito Federal.

Com a rearticulação, a questão da produção, passou a ser novo paradigma do cineclubismo brasileiros. Hoje o nome CINECLUBE virou grife, a imensa maioria dos canais de televisão abertos ou a cabo, tem uma sessão cineclube, empresas, escolas e movimentos sociais, ostentam programas com o nome cineclube, mas, entre todas as mudanças de uma sociedade que começou a vislumbrar mudanças sócio econômicas, culturais, comportamentais, impulsionadas pelas questões globais, a direção cineclubista, busca orientar os cineclubes sem considerar, que mesmo com as transformações operadas no cinema, sem o filme, a conjugação do verbo CINECLUBAR inviabiliza o ato principal do fazer cineclube.

Diogo Gomes dos Santos
Cineclubista, Cineasta, Historiador, foi presidente da Federação Paulista (1981 – 82) e do Conselho Nacional de Cineclubes, 1984 – 86, Administrador Geral da Dinafilme, associado fundador do Cineclube Bixiga, fundou e editou o jornal “ImageMovimento”, a revista “CineclubeBrasil”, roteirista e diretor de cinema.



Referências Bibliográficas Consultadas

ANDRADE, Rudá – Cadernos da Cinemateca nº 1, Cronologia da Cultura cinematográfica no Brasil, São Paulo, Fundação Cinemateca Brasileira, 1962.

SANTOS, Diogo Gomes, Imagens do Imaginário, Pop-Art, Cinema e Denúncia Social, Trabalho Conclusão Disciplina, Pós-Graduação, O Ppapel do Documentário do Nuevo Cinema Latino-Americano, PROLAM/USP, São Paulo, 2017.

SIMONARD, Pedro, A Geração do Cinema Novo, para uma Antropologia do Cinema, Rio de Janeiro, Mauad X, 2006.

ISMAIL, Xavier, Sétima Arte: Um Culto Moderno, pp. 201, Perspectiva, São Paulo, 1978.

Disponível em www.diogo-dossantos.blogspot.com.brAcessado em 21/08/2017.

Disponível em: <http://www.academia.edu/6409070/Cinema_do_Povo_o_primeiro_cineclube> Acessado em 21.08.2017.
 
Disponível em: http://www.cinemateca.gov.br/pagina/a-cinemateca-historia Acessado em 21/o8/2017.

Jornal O Estadão, 28/05/1956, Documento do acervo Cineclubista Diogo Gomes dos Santos.

Boletim Cineclube, 1983, Documento do acervo Cineclubista Diogo Gomes dos Santos.

Boletim CADINA, 1982, Documento do acervo Cineclubista Diogo Gomes dos Santos.

Disponível em: 






[1] - A reorganização do Movimento Cineclubes Brasileiro, estava previsto no programa de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sua REARTICULAÇÃO tem início em São Paulo em torno da proposta de exibição de filmes em São Paulo, proposta pelo autor e posteriormente se efetiva com a ida de Gilberto Gil para o Ministério da Cultura, Orlando Senna para a Secretaria do Audiovisual e Leopoldo Nunes para chefia de Gabinete de Orlando Senna.
[2] - Em São Paulo o Cineclube do Centro de Cultura Operária [CCO], que funcionava no bairro da Bela Vista, se recusou a passar o filme “No Tempo das Diligências” {Stagecoach}, 1939 Dirigido por Jonh Ford, assim como a Administração Regional da Dinafilme de Minas Gerais, sob a responsabilidade da Federação Mineira de Cineclubes, se recusou e devolveu uma cópia do filme citado, por ser americano e em ambos os casos, o fato de ser Jonh Weyne o ator do filme, contribuiu decisivamente para a decisão. Pesou sobre o ator o fato dele ter sido presidente do Comitê de Atividades Anti-Americanas.

domingo, 17 de setembro de 2017

CINECLUBISTA BRASILEIROS, ESCUTAI-VOS!


Cineclubista Brasileiros, Escutai-vos! [1]



“Um espectro ronda[2]” o Movimento Cineclubista Brasileiro, o espectro da identidade, perdida?

É difícil conceber a existência do cineclubismo como atividade civilizatória, desassociada da cultura cinematográfica e do audiovisual, da militância política e cultural, sem o filme como ferramenta do fazer cineclube. Urge perguntar: Os cineclubes ainda são organizações coletivas?

Cineclubistas deveriam saber, que o desenvolvimento da narrativa fílmica, é impulsionada pela ação do antagonista. Portador de significados, o protagonista conduz a resolução do conflito - gerado pela ação do antagonista -, e no final, o protagonista salva a mocinha e eles...


Como atividade difusora da cultura cinematográfica, um dos objetivos dos cineclubes, era participar diretamente do processo de criação e produção do cinema, já que no final, pela natureza da sua atividade, lá estariam, como princípio e fim desse metamorfósico e ideológico cineclubar, utópico, que os mantém ativos.

A atividade cineclubista permanece viva na memória do Cinema Brasileiro, com substantivos, adjetivos e verbos que os qualifica e legítima sua contribuição no desenvolvimento do cinema nacional.

Recorremos aos nossos antepassados para realçar que os festivais, as cinematecas, as entidades de representação da classe cinematográfica, os primeiros passos para o reconhecimento das imagens em movimento, como expressão da “beleza cinematográfica”, elevada à condição de arte, em muito se deveu a atitude cineclubista. Desconhecido o passado, inapropriado o futuro.



A impressão genérica é que hoje, os cineclubes renunciam o filme como objeto preferencial do seu trabalho e tão pouco lhe confere legitimidade como meio de expressão, tanto do ponto de vista da informação, da comunicação, da educação, como da diversão. Papo reto: Hoje, os cineclubes se sentem representados nos filmes brasileiros?

O mercado de cinema no Brasil e no mundo (ressalvo para as exceções), continuam “ocupados” pelo produto estrangeiro, principalmente aquele de consumo ligeiro, notadamente norte-americano, tornando na prática, o filme nacional, exilado em seu próprio território. Continuamos vendo um ou outro filme de nossos vizinhos latino-americanos, pela via do invasor. É assim que “Nós somos o público”?

Somos mais de 207 milhões de habitantes, talvez, 10% da população tem acesso as salas de cinema, ao filme brasileiro (nos referimos ao público, ingresso vendido é outro departamento). Permanece o índice de 95% dos nossos municípios sem sala de cinema.  Isso nos diz respeito? E o outros 90% da população, que lugar ocupa nos objetivos dos cineclubes?


Vivemos tempos difíceis, mas poucas vezes o terreno foi tão propício como agora, para os cineclubes proliferarem país afora. O debate é condição sine-qua-non na essência do cineclubismo. Nunca se produziu tanto cinema como atualmente e nunca o acesso ao filme foi tão favorável como agora. Um pendrew, uma difusora no bolso.

Por imposição do fato, estarmos vivendo num Estado de EXCEÇÃO. Declinamos o silêncio, as armas cineclubistas, aguçai a vossa militância cidadã, e como diz o também cineclubista Vinícius de Morais: E no entanto, é preciso cantar! Paulo (personagem do filme Terra em Transe, 1967, Glauber Rocha): Eu preciso cantar! Cineclubistas: Precisamos cantar!

Desde a última jornada, pipocam esforços pela nossa imensidão territorial, iniciativas para recolocar o cineclubismo na cena cultural do país, no que pese a existência de teoria vaticinando o fim dos cineclubes!



Destravemos o diálogo, ocupemos as ferramentas digitais com o altivo som e movimento da língua portuguesa, projetemo-nos nas telas e juntos com o público, vamos conversar com o filme.

Parece evidente, que precisamos com muita urgência, estabelecer um processo de escuta para ouvir o outro, o diferente, o divergente e até mesmo o correligionário. É na lista “cncdialogo”, que este processo de escuta cineclubista, deve ser fomentado e conduzido pelo bom senso, em torno de uma pauta mínima, visando a realização da próxima jornada e de uma possível “Consolidação do Espaço Cineclubista[3](Slogan da gestão 1984-86), e recolocar o Movimento Cineclubista no olho do furacão da luta geral da sociedade brasileira, por sua plena normalidade constitucional.

Os cineclubes estão na base piramidal da sociedade brasileira, conversam direto com o público, como indica a “Carta de Tabor” e por isso, nossa aversão quanto a interpretação de que “Nós somos o público”.


Na plenária da última Jornada foi formada uma Comissão para elaborar propostas para mudar os estatutos. As propostas foram compiladas, estão à disposição. Mas, como discutir mudança de estatutos, quando está em cheque a natureza do objeto que ele deverá regular? A compreensão do que é um cineclube, é consensual?

Convenhamos! A autocrítica é fator essencial no exercício da democracia. Será ser difícil outra Assembleia do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros – CNCB -, sem Jornada, sem Pré-Jornada, sem discussão do processo eleitoral, laureada de incertezas, imersos no nada, como já aconteceu antes. É urgente fazermos uma avaliação crítica da Rearticulação de 2003.



Partirmos de corações e mentes abertas, sabendo que a princípio estamos todos do mesmo lado, alguns nas mesmas e outros em barricadas diferentes, mas do mesmo lado, dispostos a saber quem somos e quem é o outro que está do meu lado?

O que estamos propondo é que conversamos, de maneira franca, radicalmente indignada, fervorosa, democrática, na defesa de nossas ideias e convicções. Sabendo que poderemos defender pontos de vistas diferentes, antagônicos, mas sinceros. É desse diálogo que pretendemos manter viva, mais do que nunca, a atitude cineclubista!

Uma vez cineclubista, sempre cineclubista!

O convite está lançado!


Diogo Gomes dos Santos
Cineclubista




[1] - Colocamo-nos ao lado dos “torcedores” do que DOS teóricos do marxismo, o Uni-vos, fica explicito. Optamos pelo “Escutai-vos”, na perspectiva do coletivo. Nota do Autor.
[3] -, Boletim Telão nº 1, publicação do então CNC.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

FUERA DE AQUI!

Fuera de aqui*
Este texto foi escrito como comentário em resposta a um Artigo de um amigo (João Carlos Faria), para o site Entrementes, que pode ser acessado em: http://entrementes.com.br/2017/09/hollywood-se-faz-real/, em 07/09/17.


Meu querido amigo Joka (João Carlos Faria), permita-me dizer com respeito e carinho: Hollywood, fora daqui! Qualquer cultura que exclui o outro, pouco ou nada tem a contribuir com a evolução da civilização humana. Na sua usura, violência e prepotência hollywood prima como exemplo.
Em fevereiro de 1911, aportou no Brasil, uma comitiva que ficou conhecida como “embaixada americana”, que aqui veio, para estudar o potencial mercadológico do nosso cinema. Nos anos que seguiram, nosso cinema ficou marcado pela expressão “cinema de cavação”, tal o estado de mendicância a que ficou submetido o cineasta brasileiro. Por volta de 1920, não só o Brasil, os cinemas nacionais começaram a sobreviver com a incomoda invasão do produto de consumo ligeiro, proveniente de hollywood. Hoje os cinemas nacionais (salvo raríssimas exceções, ainda, Índia e Nigéria), todas as demais são cinematografias exiladas em seu próprio território.
Alexandre, o grande, o macedônia, aluno de Aristóteles, queria levar a cultura “helênica”, para os seus domínios. Compare com hollywood. É significativo que a indústria do entretenimento está sempre entre as três primeiras do BIP dos EUA, ao lado da bélica e química. Alguma dúvida quanto ao consumo ligeiro!
Com urgência, sem nenhum entusiasmo, premido pelo atrito maquinar do rolimã, ando a confundir a sonoridade do vernáculo pátrio, com o balbuciar do mandarim. Enquanto vago de tela em tela assistindo filmes brasileiros em horários ofensivos e em raríssimas telas do ainda seu território.
Já que falastes de Plínio Marcos, ele dizia “no Brasil, artista americano morto, trabalha mais do que ator brasileiro vivo”. Pegue a imensa maioria dos filmes americanos, inclusive de gente respeitada como você, com propriedade os cita, e me explica qual a importância de se colocar pequenas cenas de corrupção. Preste atenção, toda vez que um americano, nos filmes americanos querem conseguir uma informação, eles colocam uma ceninha de corrupção, que nada acrescenta ao conteúdo no filme. No filme “O Homem da Máfia”, o personagem do Johnny Depp, diz: “Os Estados Unidos, não é uma nação, é um negócio”. (Usei o termo, NÃO, só porque é citação!).
Sempre fui e serei um entusiasta incentivador do seu desejo de fazer cinema. Como és homem das letras, sugiro uma espiada na escola egípcia e cubana de roteiro, mas antes, uma imersão pela luminosidade do Vale do Paraíba, onde por acaso, ainda existe alguns resquícios do velho Mazzaropi, é sempre salutar. E para sublinhar, aqui vai uma referência a Ridley Scott, no filme Cruzada, onde se lê uma frase esculpida na madeira da casa do antão ferreiro “Que homem é um homem que não muda o mundo ao seu redor”.
Aguardo com renovada esperança, ver surgir nesta megalópole chamada São José dos Campos, um indício de produção, fincado nos valores culturais deste chão, exercitando as ideias de que o cinema é a escrita da luz, e filmar com a palavra e escrever com a câmera, é um bom caminho para se produzir, arte, cinema!

Diogo Gomes dos Santos
Cineclubista

·         Fuera de Aqui! 1977, filme Boliviano de Jorge Sanjinés