sexta-feira, 14 de abril de 2017

Uma Provável Cronologia da História do Pensamento dos Cineclubes Brasileiros.

Esta contribuição, imbuída da mais sincera intenção, embora pretenciosa, tem somente o desejo de contribuir com o desenvolvimento do cineclubismo brasileiro. Consciente de tarefa tão instigante, mas com sério risco de comentários que a possa colorir de inglória cor. Mas, uma vez cineclubista, sempre cineclubista!


Em 2017 completa o primeiro centenário do Cineclubismo no Brasil, embora as mentes atrofiadas dos detentores do “poder” dirigente do Movimento Cineclubista a época, não reconhecem a data “paredão” e sim a “Chaplin Club”. É apenas uma questão de ponto de vista ou falta de foco na atividade memorial cineclubista. Se o Cineclube Paredão existiu ou não, não é questão, é fato. Se ele foi proto ou pleno cineclube, é narrativa. No entanto, Paredão é contribuição seminal!



Do Paredão a primeira fase do Clube de Cinema de São Paulo – 1940/45 -, ganhou relevância a experiência do Chaplin Club, que nos deixou registrado seu legado de importância fundamental, ficando para depois da segunda guerra mundial, a pouco conhecida, mas significativa contribuição da igreja católica ao cineclubismo brasileiro, marcada de forte teor teológico.

Com o firme propósito de defender o cinema mudo em detrimento do falado, os membros do Chaplin Clube se esmeraram em seus argumentos, mas terminaram por enaltecer muito mais o cinema ilusionista do que a diversidades de outras filmografias mais realistas, voltadas para o filme como ferramenta de discussão dos conflitos sociais do homem, que a fuga destes. Seria prematuro atribuir ao Chaplin Clube uma tendência ideológica a partir de suas reflexões críticas sobre o cinema em geral, propósitos que eles não professaram.


Ganha essencial relevância a segunda fase do Clube cinema de São Paulo, que ao retoma suas atividades a partir de 1956, ramificando suas atividades para muito além da simples difusão. Eles vão criar uma vasta gama de eventos e organizações pilares do cinema brasileiro, começando pela Cinemateca Brasileira/SP, a Cinemateca do MAM/RJ, A Cinemateca Guido Viaro de Curitiba/PR, vários Festivais de cinema, o movimento do Cinema Novo, o Centro de Cineclubes de São Paulo, marco nascedouro do Movimento Cineclubista Brasileiro e depois veio a realização da I Jornada de Cineclubes Brasileiros e subsequente o Cineclube da Faculdade de Filosofia do Rio de Janeiro, os Clubes de Cinema de Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador, Fortaleza, Manaus, Teresinha, Belém, Recife, Natal, Brasília, entre outros.
Mesmo sendo um período de forte influência dos cineclubes católicos, sua contribuição reflexiva sobre o cineclubismo é de fundamental importância sua contribuição. Já nesta época, década de 1950, a presença de ações isoladas de grupos de cineclubistas ligados ao Partido Comunista Brasileiros, exibindo e debatendo filmes em Sindicatos e nas organizações do movimento social, já era foco de disputa velada, por um espaço de predominância, num segmento sócio cultural dos mais significativos da sociedade brasileira da época, o cineclubismo.

O país, principalmente o Brasil litoral vivia um período[1] de grande efervescência social, os cineclubes ensaiam uma face mais popular, com os cineclubistas cineastas, também participes dos Centro de Cultura Popular – CPC - da União Nacional dos Estudantes – UNE -, produzem o filme “5 vezes Favela”, passaporte da atividade de difusão dos cineclubes com o movimento estudantil da União Nacional dos Estudantes, para a realização.


Esta junção fortalece o surgimento de novos cineclubes, a disputa interna adianta-se com ímpeto para o campo mais teórico, enquanto a presença da igreja como promotora da ação vai cedendo lugar para alguns cineclubes, dois deles mais se destacaram: O Cineclube Pró-Deo[2] de Porto Alegre, de ascendência católica e o Cineclube do Centro Dom Vital[3], em São Paulo, embora atuando dentro de uma instituição de orientação católica, seus membros em sua imensa maioria, eram também de tendência marxista.

                                                        
                                               Alfredo Sternheim, Cc Dom Vital 
                              


       Gustavo Dhal, Cc Dom Vital


                                                                         Jean-Calude Bernardet, Cc Dom Vital 


 
       Filme do crítico Rubem Biáfora, Cc Dom Vital 

Esta simbiose mantém o crescimento do Movimento Cineclubista e com a realização das jornadas, cria-se em 1965, o 1º Festival do Filme Brasileiro de Curta-Metragem, durante a realização da V Jornada Nacional de Cineclubes, ocorrida em Salvador, BA, findando sua curta existência com a 3ª edição, no âmbito da 7ª Jornada, Brasília, DF, 1968, quando os cineclubes confrontam com o aparato repressivo do Regime Militar. A 7ª Jornada se transforma num épico contra a liberdade de expressão censura pela Ditadura, culminando com o encerramento das atividades dos cineclubes a partir de dezembro de 1968, depois da edição do Ato Institucional de nº 5 – AI-5. Os anos de 1969 a 1974, os cineclubes estarão ausentes enquanto movimento organizado, da cena cultura do país.


O processo de reorganização do Movimento Cineclubista no início da década de 1970, ocorreu sob a recomendação do Partido Comunista Brasileiro – PCB -, que compreendeu a importância da contribuição que os cineclubes vinham prestando ao desenvolvimento do Cinema Brasileiro. Daí por diante e todo o processo de reorganização do Movimento e a direção, estará sob a influência das ideias do partido.


O racha do partido comunista com relação a adoção da guerrilha como alternativa de combate à ditadura, terá influência significativa na atividade dos cineclubes, entre eles o Cineclube Tirol em Natal, RN, ao cineclube Aquiry[4] em Rio Branco, no Acre, no Cineclube Glauber Rocha no Rio, a direção da Federação de Cineclubes do Estado do Rio de janeiro. Enquanto o seu presidente, estava voltado para a produção cinematográfica[5], o seu vice estava entre os guerrilheiros que sequestraram um avião e seguiram para o exílio, em Cuba.


Após a “Carta de Curitiba”, documento norteador das atividades cineclubistas exercerá certa hegemonia na política cineclubista, apesar de ter sido escrita pelo crítico de cinema Eli Azeredo, tido como “católico conservador”, que não se furtou em conciliar na versão final do documento com um dos mais brilhantes membros do partido na época e que fora eleito vice-presidente do Conselho Nacional de Cineclubes, Marco Aurélio Marcondes, tendo como presidente um católico convicto, Carlos Vieira.

A VIII Jornada foi também, berço do surgimento de uma vertente de oposição ao projeto espelhado nas deliberações finais daquele documento, definidor da opção cineclubista pela exibição. A oposição surge em função imbricado binômio exibição/distribuição[6]. Daí surge a ideia de se criar uma distribuidora de filmes que desce sustentação as atividades dos cineclubes, livrando-os da dependência do mercado. A disputa que surge a partir dessa polêmica aponta o caminho do cineclube como exibidor, com potencial proporção para se criar uma alternativa de exibição do filme brasileiro, com a criação de um circuito de exibição que contemplasse filmes de temáticas críticas a realidade social e política do país. A outra propositura apontava para um cineclubismo que caminhava na direção da reflexão da crítica e da estética, aliada a realização cinematográfica, canal de ligação direto com a distribuição e a difusão, visão capitaneada pela vértice “trotskista” no Movimento Cineclubista.

Estas duas tendências se confrontaram, na disputaram pela direção do Movimento Cineclubista Brasileiro, tendo como palco a realização da XII Jornada Nacional de Cineclubes, ocorrida na cidade de Caxias do Sul, RS, 1979. Naquela disputa as concepções se fizeram claras, pelo menos para as lideranças do cineclubismo, que ali, com veemência a verve se expuseram.


Tal foi o susto para a tendência vencedora que concebia o cineclubismo comprometido com a exibição e a difusão da obra cinematográfica, que circuito de exibição se aprimorou e com ele sua visão de organizar o público, tanto a favor do cinema como do re-estabelecimento do Estado de Direito no país. Para manter-se majoritária na direção do Movimento essa tendência se organizou internamente no seio do Movimento Cineclubista, com o codinome “Avançar[7]”. Dela fazia parte e eram maioria, cineclubistas que membros do Partido Comunista Brasileiro.

O que surgiu de lá para cá, 1979/80 aos dias atuais, 2017, foi outra tendência política, inspirada num misto de marxismo com teologia da libertação, sedimentada fortemente na práxis pedagógica e cineclubista, centrada nas concepções de condutas teóricas, práticas, éticas e morais da “Avançar”.

Evidente que uma reflexão mais aprofundada dessa questão, considerando os acontecimentos que deflagraram a queda do Muro de Berlin, o avanço do Neoliberalismo com o Consenso de Washington e a nova configuração global, em particular da América Latina e mais especificamente, contextualizando a atividade do Movimento Cineclubista do século 21 – 2004 a 2015 -, a partir dos acontecimentos da XXV Jornada, com a criação do outro Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros, o CNC do B, a docilidade com a pauta estatal e, apesar da assimilação das novas tecnologias pela pratica cineclubista, é possível identificar outras tendências, bem próxima - grosso modo -, dos que se identificam com a ideia do “Estado Mínimo” e os que mais advogam as causas do “Estado Forte”. Embora isso não ultrapasse a linha ideológica do marxismo, ela ajudará a redesenhar o cineclubismo.

Em situações desta natureza é imprudente ignorar a voz do silêncio, daqueles que não se manifestavam, mas atuam dentro daquilo que se convencionou chamar de prática cineclubista, que neste momento é o que mantém acessa a chama do cineclubismo.

Por outro lado, as cisões que o movimentou vem sofrendo desde então, pode não se configurar lepidamente numa tendência ideológica, mas com certeza, em alguns momentos históricos do movimento, representou uma nova postura, contribuiu com seu desenvolvimento e com certeza do Cinema Brasileiro.

Difícil de ser percebida, mas ela existe, está no ar e nas práticas de um Novo Cineclubismo em processo permanente de construção. No entanto, essa expressão silenciosa, se não explicitada, corre o sério risco de virar inconformismo, massa de manobra, de parca consequência, capaz apenas de influenciar esta ou naquela corrente, em algum momento específico, mas que se manterá na mesma condição de convivência suportável do jogo democrático.

Diogo Gomes dos Santos
Cineclubista, Cineasta, Historiador






[1]  - O pós-guerra, a volta de Getúlio Vargas ao poder e sua morte, o aceleramento da industrialização, a reconstrução do mundo e em particular da Europa, a legalização do Partido Comunista do Brasil, o movimento cinematográfico do neo realismo italiano, a nouvelle vague francesa, o novo cine latino-americano, o cinema novo brasileiro, o rock americano, a bossa nova, a bienal de São Paulo, o fim da chanchada, o movimento concretista, o MCP no recife, o CPC da UNE, a revolução cubana, a jovem guarda, a tropicália, duas décadas de muitas transformações sócio culturais, entre cortada por um golpe militar, com uma pequena fase de resistência, até o contra golpe dentro do golpe militar, instaurado no país em 1º de abril de 1964 e em 13 de dezembro de 1968, com a edição do Ato Institucional de nº 5 AI-5. 

[2] - http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/encontros-nacionais/6o-encontro-2008-1/Cineclubes%20Catolicos%20e%20Imprensa.pdf

[3] - http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000441114
[4] - http://cineclubeaquiry.blogspot.com.br/

[5] - Nesta época Silvio Tendler era o presidente da Federação do Rio e estava entrevistando o Marinheiro João Cândido para um seu filme, enquanto o seu Vice, Elmar Oliveira fez opção por outra forma de luta contra a Ditadura Civil Militar, participando do único sequestro de avião ocorrido no Brasil.

[6] - A Diretoria eleita do CNC rejeita de imediato a ideia de se criar uma distribuidora, mas reavalia sua posição e quando chega na realização da IX Jornada, concorda com a proposição da distribuidora, a plenária aprova e no ano seguinte, surge a Dinafilme - Distribuidora Nacional de Filmes para Cineclubes.

[7] - Avançar, expressão usada por Stalin quando este ordena para o exército vermelho avança sobre o exército nazista, sitiado em Leningrado, durante a Segunda Guerra Mundial. A tendência avançar sempre foi muito crítica com relação as suas práticas stalinistas no c ineclubismo.

quinta-feira, 2 de março de 2017

HÁ 60 ANOS NASCIA, COM O CENTRO DE CINE-CLUBE DO ESTADO DE SÃO PAULO, O MOVIMENTO CINECLUBISTA BRASILEIRO!




Centro de Cine - Clubes do Estado de São Paulo
Com ele nascia há 60 anos, o Movimento Cineclubista Brasileiro.


“Cineclubismo é antes de tudo movimento, movimento de gente, de ideias, de imagens e sonhos em favor da atividade cinematográfica[1]”.


A memória historiográfica do Movimento Cineclubista Brasileiro, carece de melhor organização e sistematização. Não é exagero dizer que a predominância de sua história, ainda é oral. Dispersa, podemos relacionar três ou quatro livros e mais recentemente alguns “Trabalho de Conclusão de Curso” ou uma e outra “Tese”, que abordam diretamente esta atividade e sua forma de organização, reflexão e difusão da cultura cinematográfica e do audiovisual brasileira. Ao completar seu sexagésimo aniversário, cuja referência remonta a 29 de outubro de 1956, data de fundação do Centro de Cine-Clubes do Estado de São Paulo.

Falando genericamente, vive na “Memória do Cinema Brasileiro”, por meio de seus protagonistas – principalmente daqueles remanescentes da sua militância cineclubista[2] -, uma história repleta de substantivos e adjetivos, que qualificam o cineclubismo como uma das mais importantes atividades da cultura cinematográfica brasileira, também do ponto de sua contribuição às sua formação profissional.

Segundo Paulo César Saraceni, o Cinema Novo nasceu nos cineclubes, dentro do cineclube da FNFi (Faculdade Nacional de Filosofia do Rio de Janeiro). Da turma que ele frequentava saíram grandes diretores: “O Saulo Pereira de Melo, que era o presidente do cineclube, Miguel Borges, Marcos Faria. O Marcos Faria  trabalhava com os ferroviários da Central do Brasil, lá ele tinha o cineclube. O cineclube sempre fez parte do Movimento do Cinema Novo e foi dele que saiu primeira turma do Cinema Novo”[3].  Maurice Capovilla arremata “nossa formação foi basicamente de cineclubista[4]”.

 Registra-se no Brasil a presença dos cineclubes em suas primeiras atividades como forma de organização, difusão e reflexão da cultura cinematográfica, já na primeira década do século XX, 1917, Cineclube Paredão[5], na cidade do Rio de Janeiro, cujo modelo seguia o dos “Clubes de Cinema franceses”.

Os cineclubes surgiram na França, por inspiração do cineasta Louis Delluc e do crítico de arte, Ricciotto Canuto, italiano radicado na França. Em 1913 acontece a primeira sessão acompanhada de debate após a exibição de um filme, “A Comuna de Paris”, realizado pelo do grupo do Cineclube do Povo, atesta Felipe Macedo[6].


No Brasil aquele modelo solidificou e permaneceu influente até meados da década de 50. Os cineclubes e/ou Clubes de Cinema, que eram criados, vias de regra, nas universidades de ciências humanas, tinham à frente, intelectuais, escritores, críticos de cinema, jornalistas, professoras, que contribuíram decisivamente para a consolidação dos pilares do cinema, cuja principal característica, foi à reflexão crítica da obra cinematográfica; a formação de profissionais da área, além da criação de instituições como as Cinematecas; Festivais e entidades da classe cinematográfica.

Daquele modelo de “Clubes de Cinema”, ainda existe sobrevivente nos dias atuais, com umas duas ou três representações, em atividades ininterruptas (Clube de Cinema de Porto Alegre, Marília, Lins, Lorena, Santos). A imensa maioria desses clubes, a partir dos anos 50 foi incorporando nova nomenclatura (Cineclube), nova forma de organização, atuação e representação, prestando relevantes serviços à causa da cultural cinematográfica e do audiovisual Brasileiro.

Os primórdios do cineclubismo no Brasil apontam para o ano de 1917 como o início desta atividade em nosso país, com o surgimento do Cineclube Paredão[7], na cidade do Rio de Janeiro. Conforme depoimento de Pery Ribas, eles “reúnem-se na casa de Álvaro Rocha, que colecionava filmes, e lá assistiam sessões como um pequeno clube de cinema”. Ribas em depoimento para Rudá de Andrade continua dizendo que participavam daquele cineclube: “Adhemar Gonzaga[8], Álvaro Rocha, Paulo Wanderley, Luís Aranha, Hercolino Cascardo e Pedro Lima, então estudantes do Colégio Pio-Americano, formavam um grupo de interessados em cinema. Eles freqüentavam os cinemas Íris e Pátria e discutindo os filmes”. (RUDÁ, 62).

Por sua vez, André Gatti diz: “... Esses pioneiros utilizam-se de métodos cineclubistas consagrados, como assistir a filmes e, após a sessão, promover um debate entre os integrantes... Esse grupo ficou conhecido como Cineclube Paredão[9]”.

Onze anos separam o Cineclube Paredão do “Chaplin Clube”, fundação em 13 de junho de 1928, na cidade do Rio de Janeiro, por iniciativa de Otávio de Faria, Plínio Sussekind Rocha, Almir Castro e Cláudio Mello. 11 anos separam o Chaplin Clube da fundação do Foto Cine-Club Bandeirantes, fundado na cidade de São Paulo em 1939 e 12 anos do Chaplin Clube da fundação do Clube de Cinema, em 1940.

O curioso para ambos é que, o Foto Cine-Club Bandeirantes, só veio a desenvolver atividades cineclubistas, no início dos anos quarenta. O Clube de Cinema de São Paulo, após “realizar dez sessões, foi fechado, em 1941, pelo D.E.I.P.”, (Rudá, 62). Em 1946 ele reaparece e somente a partir daí é que a atividade cineclubista na cidade começa a ser mais constante, Impulsionadas pelas diversas iniciativas, em diversos segmentos no campo da cultura cinematográfica e pelo surgimento de outros clubes de cinema no interior paulista e em vários estados do país.

Em 1950 Carlos Vieira, empenhado em criar no país um movimento de entidades que tivessem por objetivo discutir a cultural cinematográfica, tenta e não consegue realizar em São Paulo, um encontro que agrupasse aquele tipo de entidades num órgão que as representasse nacionalmente. Diz ele que “a dificuldade em reunir pessoas preparadas para uma empreitada dessa natureza, nesta época, era tarefa incomum na cultura cinematográfica do país”.

Em 29 de outubro de 1956, Carlos Vieira e seus correligionários, fundam o Centro de Cine-Clubes do Estado do Estado de São Paulo – CCESP. A Assembleia
de fundação foi realizada na seda da Cinemateca Brasileira, que naquela época pertencia ao Museu de Arte Moderna, com sede na Rua 7 de Abril. (Diário da Noite, pág. 8, 57).                                         
A fundação do CCESP foi o resultado de um processo longo, que culminou com uma deliberação do “primeiro encontro de cine – clubes paulistas”, convocado pelo grupo que se reunia em torno do Sr. Carlos Vieira. O encontro ocorreu na cidade de Avaré. Participaram da Assembleia de fundação do CCESP, o Clube de Cinema de Marília, Avaré, Osvaldo Cruz, Santos, São Bernardo do Campo e de São Paulo, os cineclubes da Faculdade de Direito e Urbanismo e o clube de cinema Otávio Gabus Mendes, que patrocinou a iniciativa. 
(Diário da Noite, pág. 8, 1957).

Criado o Centro de Cineclubes, este se converte na primeira entidade de representação de cineclubes no país. Sua atuação inicia no âmbito estadual, mas logo, suas atividades começam a se propalar para muito além das fronteiras paulista e a passos largos ultrapassam as fronteiras nacionais. O Centro de Cine-Clubes de São Paulo ampliou sua abrangência e em seu quadro de associados aceitou a inclusão de cineclubes de todo o país. O Centro de Cine-Clubes participa ativamente da cena cultural e cinematográfica e é reconhecido como membro da Federação Internacional de Cineclubes (International Federation of Films Societies).

“Com o objetivo primordial de incentivar às atividades cineclubistas, o Centro como um bureau tem caráter consultivo e auxiliar para as entidades cineclubistas que a ele se filiam, nasce com o propósito de: 1) cooperar com os cineclubes no fornecimento de programação guia, constituída de filmes selecionados pelo seu valor artístico cultural; 2) exposições circulantes sobre a cultura cinematográfica; 3) palestras, cursos e seminários nos cineclubes; 4) estímulo à organização de bibliotecas especializadas; 5) intercâmbio dos cineclubes com entidades congêneres do país e do exterior; 6) colaboração por todos os meios a seu alcance na defesa do patrimônio histórico e artístico do cinema nacional”. (Carlos Vieira, Diário da Noite, pág. 8, 1957).

Nesta época, segunda metade da década de 1957, todos os esforços foram empenhados para criar um movimento de entidades ligadas à reflexão e difusão da cultura cinematográfica e mais especificamente dos cineclubes. Orientados pela definição do que era um Cineclube, os brasileiros pautavam sua atuação, conforme definição da Federação Internacional, da qual o Centro era membro filiado:

“Será considerado como Cine - Clube toda instituição não comercial que tenha fins exclusivos de contribuir para o progresso da cultura e estudos históricos da técnica cinematográfica; ajudar o desenvolvimento dos intercâmbios culturais do cinema entre os povos e, por fim, estimular a difusão do filme experimental”. 
(Diário da Noite, pág. 8, 1957).

A primeira diretoria do Centro de Cine Clubes do Estado de São Paulo ficou assim constituída: Presidente: Carlos Vieira; Assistentes: Luís Antônio Barbosa; João Batista Centini e José Luís Bacheuser. (Diário da Noite, pág. 8, 1957). (Grifos do Autor).

Depois de várias tentativas frustradas, Carlos Vieira por meio do Centro de Cine-Clubes e seus amigos espalhados pelo país, conseguem viabilizar seu intento maior; realizar um encontro nacional de cineclubes e entidades de cultura cinematográfica. Isso aconteceu em 1959, na cidade de São Paulo, com a realização da I Jornada de Cineclubes Brasileiros. (Grifos do Autor).

O Centro de Cineclubes de São Paulo permaneceu funcionando até 1976, quando este se transforma em Federação Paulista de Cineclubes. Durante a década de 1960, o Sr. Carlos Vieira foi uma das maiores se não a maior referência do cineclubismo brasileiro, superando até mesmo Paulo Emílio Salles Gomes. Embora não se trata de comparações, faz jus resgatar a trajetória de sua liderança cineclubista. Não é o caso aqui, mas vale o modesto registro.

Como um dos membros fundadores do Conselho Nacional de Cineclubes, Carlos Vieira é eleito seu primeiro presidente e durante os anos de 1960, participará de todas as jornadas, até 1968, quando se realiza em Brasília a VII Jornada Nacional de Cineclubes. Em 1964 Olavo Macedo de Farias é eleito presidente do CNC, em substituição a Carlos Vieira. Neste ano não houve jornada. No ano seguinte Carlos Vieira participa da V Jornada Nacional, na condição de Secretário da Federação Internacional de Cineclubes, para America Latina. A jornada acontece em fevereiro na cidade de Salvador, BA.

Com o encerramento das atividades dos cineclubes por força do Ato Institucional de nº 5, AI-5, pouco se sabe das atividades do Sr. Carlos Vieira e do Centro de Cine-Clubes de São Paulo, que, aliás, registra-se, até o momento não tem informações sobre o seu registro em Cartório, como tem o CNC, que foi registrado pelo mesmo.

Fato é que, segundo depoimento de Marco Aurélio Marcondes para a Revista Cineclube Brasil, por indicação de Cosme Alves Neto e Paulo Emílio Salles Gomes, Carlos Vieira foi procurado para participar das articulações “clandestinas[10]”, visando à realização da VIII jornada, ocorrida em 1974 na cidade de Curitiba, que reorganizou o Movimento Cineclubista Brasileiro.

Paulo Emílio e Ilka Laurito (ao centro) laudeados por participantes do encontro
1963 - 4ª Jornada Nacional de Cineclubes - Porto Alegre
1º Encontro Sul Americano de Cineclubes


 Antes, em maio de 1974 o Conselho Nacional foi reorganizado, durante a entrega do prêmio Curumim, evento realizado anualmente pelo Clube de Cinema de Marília, interior de São Paulo. Durante o evento, houve uma “Assembleia[11]” do CNC visando reorganizar a entidade nacional. Nesta ocasião foi eleita a nova Diretoria, que foi, em seguida, submetida à aprovação da “Assembleia Nacional[12]” da Jornada de Curitiba. Carlos Vieira foi eleito presidente tendo Marco Aurélio Marcondes como vice.

Segundo Marcondes, as negociações com o pessoal “reaça da antiga” seguia o mesmo ritual, depois de muita conversa vinha à pergunta chave, que filme você gosta? “Nos Tempos das Diligências” de Jonh Ford, ah, eu também gosto. Imagina diz Marco Aurélio, “O velhinho dormia com a Marlene Dietrich, ele guardava uma cópia de 16 mm do filme Der Blaue Engel (O Anjo Azul), 1930 de Josef Von Sternberg, em baixo do colchão”.

Durante o processo de reorganização do Movimento Cineclubista, no período que antecede a realização da VIII Jornada Nacional de Cineclubes em 1974, ao contrário do que se tem afirmado, houve um intenso jogo de negociações. Não é à toa a eleição de Vieira e tão pouco a caber a Eli Azeredo, “um crítico de cinema mais reacionário do Rio de Janeiro, católico, mas bom crítico[13]”, diz Marcondes, a pilar redação da famosa “Carta de Curitiba”.

O fato de não ter havido controvérsias, faz parte da absoluta falta de informações. Não se trata de contestações, suspeitas ou coisa que o valha, única e simplesmente, não se tem clareza ou acesso a informação ou ainda, essas informações não existem, não estão disponíveis, estão num limbo  que podemos chamar de memória oral. Quem as tem continuam guardando para si. Que lástima!

Mas é de se perguntar, que fatos motivaram o Sr. Carlos Vieira a ter renunciado à presidência da entidade nacional. É sabido que as mudanças operadas na estrutura nacional dos cineclubes foram muito significativas. A mais notável dizem respeito à natureza do poder máximo de decisão do movimento, passar aos cineclubes e não mais as diretorias das Federações.

Com a reorganização do Movimento Nacional, o Centro de Cine-Clubes de São Paulo, permaneceu filiado ao CNC como órgão de representação dos cineclubes paulistas. Em informações orais e corriqueiras, sabe-se que um grupo de cineclubistas muito próximos da Fundação Cinemateca Brasileiros, liderados intelectualmente por seu conservador, Paulo Emílio, se filia ao Centro de Cine-Clubes de São Paulo e posteriormente o transforma em Federação Paulista de Cineclubes.

Derrotado, Carlos Vieira passa a ser lembrança pejorativa do movimento cineclubista e sempre que seu nome surgia, era, via de regra, como figura ultrapassada, representante de um cineclubismo “conservador, reacionário”, ligado ao contemplativismo, da discussão da arte pela arte.

Em 1984, o Sr. Carlos Vieira tem seu nome é lembrado para ser homenageado na XVIII Jornada Nacional de Cineclubes, ano em que se pretendia manter o mesmo grupo no poder. Sua participação se restringiu a simples figura decorativa. O Movimento mudou de orientação política. Foi muito provavelmente sua última participação no Movimento Cineclubista.

Neste ano de 2016 em que deveríamos celebrar os 60 anos do surgimento do Movimento Cineclubista Brasileiro[14], realçar a importância de Carlos Vieira, é de fundamental importância, não só por seu legado, mas também como valoroso militante cineclubista. Sua história deve ser melhor resgatada, a luz da memória cineclubista, para que fique registrado nas mentes e impresso nos corações das futuras gerações cineclubistas.

Diogo Gomes dos Santos
Cineclubista / Cineasta / Historiador





[1] - Manifesto da Rearticulação do Movimento Cineclubista Brasileiro”
[2] - Referência a cineastas como Silvio Tendler, Walter Lima Júnior, Carlos Diegues, Umbelino Brasil, Pola Ribeiro, Roberto Gervitz, Maurice Capovilla, etc. Nota do autor.
[3] - SIMONARD, Paulo, A Geração do Cinema Novo, Para uma antropologia do cinema, pág. 72/73, editora Mauad, RJ, 2006.
[4] - Idem, pág. 101
[5] - Coleção “Cadernos da Cinemateca” – 1 CRONOLOGIA DA CULTURA CINEMATOGRÁFICA NO BRASIL - RUDA, Andrade, Edição da Fundação Cinemateca Brasileira, São Paulo, 1962.
[6] -    Acessado em 17 de setembro de 2016.
[7] - Sobre o Cineclube Paredão e sua provável  aceitação como marco histórico, é quase unanimidade a recusa em invalidar sua existência, a ponta dessas negativas, poderem ser utilizadas como prova de sua existência. Delas podemos citar Ismail Xavier (Sétima Arte: Um Culto Moderno); Pedro Simonard (A Geração do Cinema Novo, Para uma antropologia do cinema); Felipe Macedo (http://www.felipemacedocineclubes.blogspot.com/ ); Helio Moreira da Costa (O Onírico Desacorrentado: o movimento cineclubista brasileiro (do engajamento estético à resistência nos anos de chumbo – 1928 a 1988), entre tantos outros. Nota do Autor.
[8] - GONZAGA, Adhemar, é o cineclubista  de nº 1, constante do Observatório Cineclubista, Blog ligado ao CNCB. http://www.culturadigital.br/cineclubes/comunidades-cineclubistas/cineclubistas-brasileiros/adhemar-gonzaga/ (acessado em 18/08/15).
[9] - GATTI, André, Enciclopédia do Cinema Brasileiro, Org. RAMOS Fernão e MIRANDA, Luiz Felipe, pág. 128, SP, Editora SENAC, 2ª edição, 2004.
[10] - Grifo do autor
[11] - Estou usando o termo Assembleia, mas ele deve ser relativizado em seu rigor formal, estatutário, devido às circunstâncias da época. O evento do Clube de Cinema de Marília deu cobertura legal, para o encontro “clandestino” dos cineclubistas.
[12] - Esta atitude, podemos identificar como marco fundamental e diferencial da postura do Movimento até então. Até a VII Jornada, a eleição da Diretoria do CNC ocorria em Assembleia desvinculada da Jornada. É só depois da reorganização de Curitiba, que elas passam a ser um único evento do CNC.
[13] - Entrevista a Revista Cineclube Brasil nº 2
[14]  - Sempre que nos referimos à história do cineclubismo e utilizamos o termo Movimento Cineclubista para identificar a história dos Cineclubes como o  Paredão ou do Chaplin Clube. Talvez o mais correto fosse utilizar o mesmo termo quando nos referíssemos às organizações de representação, como as Federações, Associações, Conselho Nacional de Cineclubes. A história isolada dos cineclubes Paredão e/ou Chaplin Clube, são referências históricas dos cineclubes. O termo Movimento está ligado ao surgimento das organizações de representação dos cineclubes de determinado local, Estado ou país. Nota do Autor.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Carta Aberta a Diretoria do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros – CNC B.

Caros Companheiros,

Considerando a situação inominável em que se encontram as instituições públicas do país, mergulhadas em crises de toda ordem, principalmente que a frente delas, encontram-se homens vis, que outra crença não professam, se não a locupletação ilícita. Isso não justifica a inatividade letárgica de grande parte da sociedade civil brasileira. Não nos esqueçamos, o protagonista de um filme é aquele personagem que desce ao fundo do poço. Desnudado ele se transforma. É o que ainda espero do Cineclubismo e da sociedade civil.



Devo dizer que depositei enorme esperança no processo que culminou com a eleição da Diretoria dessa entidade CNC B 2015 em Itaparica, e cuja enorme tarefa lhes fora confiada, não para “salvar” a bancarrota a quem foi submetida a entidade e o Movimento Cineclubista Brasileiro nestes últimos 11 anos (2004 a 2015).

Penso que é uma das tarefas dessa Diretoria é ser ferramenta despertadora da anima cineclubista que se encontrava e parece que ainda se encontra, encrostada em teorias vãs que culminaram com diversas iniciativas “louváveis”, mas que sem confluências com as atividades cotidianas dos cineclubes, resultaram, na prática, em tremendos fracassos.

É dolorido dizer, mas se o faço é no intuito de chamar atenção para fatos que cabe a direção do Movimento encaminhar, uma vez que o voto dos cineclubes os legitimaram para esta condição. Mas como não lamentar, que se quer a Ata de Eleição dessa Diretoria Executiva ainda não tenha sido registrada em cartório, que a Pré-Jornada não tenha ocorrido, que um acontecimento se quer tenha sido gerado, exceção as iniciativas estaduais, notadamente Pernambuco, Rio de Janeiro, Pará, Mato Grosso do Sul e Goiás. Se outros fatos em termos de representação ocorreram, não ficamos sabendo.



A direção decidiu coerentemente não estabelecer relações com o governo golpista, mas também é desconhecida, se é que existe, alguma atividade que vise criar mecanismos de auto sustentabilidade política, financeira e cultural da entidade. Toda ação deve gerar uma contra-reação.

Durante o processo do impeachamant, se não todos, quase todos os cineclubistas individualmente se manifestaram e participaram ativamente das manifestações e de ações cineclubistas a favor da manutenção do Estado de direito do país, mas não houve uma atividade se quer da entidade nacional, exceto apoio e emissão de uma Nota Oficial a favor da manutenção da presidenta eleita no cargo.

Isso companheiros cineclubistas, repito, não é, nenhuma"futucagem inglória", é contribuição e se assim reconhecerem, sugiro algumas ações[1] a serem coordenadas pela entidade nacional, possibilitando entre outras consequências a criação inclusive emprego e renda e recolocando o Cineclubismo no foco da ação que o tempo exige que ele esteja e faça a história acontecer, já que ela está em suas mãos.

Sugestões:   
   Apoio a iniciativa de companheiros cineclubistas (que já estão discutindo esta iniciativa), com a população que foram atingidas pela catástrofe de Mariana. Fazendo um levantamento das medidas que estão sendo tomadas, com relação do meio ambiente, a saúde, a autoestima, enfim, da situação sócio cultural da das famílias ribeirinhas do Rio Doce, etc. etc. etc.;

b)      Pesquisa sobre os efeitos que causam os filmes norte-americanos (hollywoodianos), e sua influência na formação moral dos seus espectadores, no que diz respeito ao conteúdo de suas mensagens e que ajudam inculcar nas mentes despreparadas mensagens como: Violência (número de mortes por filme), incentivo a corrupção (filme com cenas de apologia à corrupção). Para começar estes dois itens já são suficientes (outros podem ser inseridos);



c)       Criação de um segmento de cineclubes ligados as OCUPAÇÕES URBANAS, ASSENTAMENTOS DOS SEM TERRA, e ação no sentido de assegurar os DIREITOS DOS IMIGRANTES;

d)      Estabelecer no país, uma ação de teia (no sentido de rede, de trama), para refletir sobre a condição de povo, de nação a que está submetida a República, tendo como ferramenta a organização cineclubista, por meio de filmes previamente programados[2] à cerca da situação política atual do país, acompanhada de curso de formação cineclubista.

Saudações Cineclubistas,


Da direita para esquerda os cineastas: Flávio Leandro, 
Ari Fernandes, Lázaro Farias, Joseane Alfer e eu.

De perfil, Arnaldo Jardim (Jornalista e Presidente da Fundação 
Cultural do DF), eu e Wilson Grey. Abertura da 20ª Jornada de Brasília, 
1986, no teatro nacional, homenagem ao ator Wilson Grey.

Debate Cineclube Ousmane Sambène, na sede do 
Centro Cineclubista de SP/CECISP



[1] - As sugestões devem ser encaminhadas em parcerias com outras instituições e devem ser transformadas em projeto a ser financiado tanto pela iniciativa pública e privada, nacional e/ou internacional.

[2] - Vamos reavivar mesmo que virtualmente, a ideia da Comissão de Programação. É na Comissão de Programação que se forma a identidade de um cineclube e consequentemente do Cineclubismo. É aqui que os filmes são discutidos em seus aspectos mais amplos e profundos, é aqui onde o cineclubista é picado pelo “bichinho do cinema”.

quinta-feira, 5 de maio de 2016


O CIRCUITO SPCINE

Mais do que relevante, é de fundamental importância a criação do Circuito Spcine, que inaugurou no último dia 30 de março, as salas no – CEU Feitiço da Vila, na Chácara Santa Maria; CEU Meninos; no Sacomã e no CEU Butantã -, três das 20 anunciadas e que serão entregues a população até o final do mês de junho do ano em curso.


A concretização deste circuito é uma ideia acalentada há tempos, não só pelo cineclubismo, mas pelo cinema brasileiro em sua expressão mais resistente. A final, o filme só existe, quando bem projetado na tela. Isso é com certeza, a razão maior da existência de qualquer filmografia, principalmente a brasileira, tão vilipendiada pelo produto estrangeiro, notadamente o norte americano, em conluio com distribuidores e exibidores, salvo muitas, raríssimas exceções.

Para além da importância do circuito para o cinema brasileiro seja como parte da formação critica, como do direito de acesso ao filme nacional chegar ao seu público natural, a formação de novo público, é crucial para que este circuito vá em busca do público que está fora daquela faixa de mais ou menos 10% da população que frequenta as salas dos cinemas comerciais, onde o filme é disponibilizado como objeto de consumo ligeiro.


Evidente que o Circuito Spcine, ao colocar o filme em contato direto com o seu público preferencial, ele, o filme, precisa ser apresentado como uma forma de expressão do povo e registro memorial do seu tempo. É fundamental que o filme seja um elemento de diversão, laser, mas essencialmente deve também, informar, formar e educar.

Quando o Centro Cineclubista de São Paulo apresentou a proposta de criação deste Circuito à equipe da Spcine, ainda na sua fase embrionária de criação e foi aceito, apontamos para a necessidade de criar mecanismos que garantisse sua existência para muito além dos governos municipais (gestão desse ou daquele partido político), para que o espectador deixasse de ser “alma” e fosse contabilizado como público que agrega valor simbólico e econômico ao filme, que fosse imperiosa a autonomia de sua gestão, livrando-a das garras de toda e qualquer burocracia, principalmente a municipal.


Criar circuitos como estes em “espaços já existentes da administração pública”, não assegura as “boas intenções” contidas nos objetivos propostos e se quer nos numerais de pesquisas vindouras. Se assim fosse, existem muito mais de 50 milhões de auditórios em equipamentos públicos – estabelecimentos de ensino -, no Brasil. Era só adequá-los. Mas... por si só filmes nacionais que se pagam nos mercados que são "ocupados" pelos enlatados holywoodianos, são especie em avançado estágio de extinção.

No entanto, este circuito, precisa adotar premissas básicas de política pública de cultura, criando mecanismos que incentive a pluralidade de suas manifestações, onde a produção local encontre mecanismos que garantam sua criação e difusão, em detrimento da tendência monopolista do sistema em criar obstáculos para que as particularidades não sobrevivam, como valor cultural universal. A continuidade dessas 20 ou 80 salas nas próximas administrações é essencial, porque é neste tipo de circuito que o diálogo entre o filme e o espectador possa ser estabelecido. É ali onde o filme transcende aos objetivos de expressão de existência, onde ele ganha perenidade, é o lugar aonde o filme se torna obra de arte.


Quando de sua passagem por São Paulo, em entrevista ao jornal A Folha de São Paulo, o então editor da revista Cahiers Du Cinèma, Antoine de Baecque disse: “O cinema brasileiro tem conferido pouca importância à contribuição dos cineclubes, ao seu desenvolvimento”. O irônico de tudo isso é que a inauguração da 20ª sala do Circuito Spcine, que antes era Biblioteca do Ipiranga, depois rebatizada "Biblioteca Roberto Santos" transformada e tematizada em Cinema, justa homenagem ao cineasta paulistano, mas, no entanto, sua asserção, remonta a atividade cineclubista - Cineclube Ipiranga - ali desenvolvida, desde a última década do século passado, cuja inspiração levou o então Secretário Municipal de Cultura Marco Aurélio Garcia, governo Marta Suplicy, a iniciar os debates em torno do que veio a ser hoje a Spcine. O irônico do icônico é que, com a inauguração da sala, o cineclube tenha sido simplesmente ignorado. 

Como sou cineclubista sobrevivente, hoje, num Estado de Exerção, diferente do civilizado cineclubista de além mar, como selvagem vou direto a jugular de alguns soberbos e prepotentes gestores públicos, então a frente da Spcine em amparar a afirmação de Baecque, no que pese a significativa contribuição já vivenciada pelo Movimento Cineclubista Brasileiro à criação deste circuito, ora em processo de implantação por essa empresa.

Diogo Gomes dos Santos
Cineclubista

"Alma", conceito difundido por Maria do Rosário citando Marco Ferreri