sexta-feira, 14 de abril de 2017

Uma Provável Cronologia da História do Pensamento dos Cineclubes Brasileiros.

Esta contribuição, imbuída da mais sincera intenção, embora pretenciosa, tem somente o desejo de contribuir com o desenvolvimento do cineclubismo brasileiro. Consciente de tarefa tão instigante, mas com sério risco de comentários que a possa colorir de inglória cor. Mas, uma vez cineclubista, sempre cineclubista!


Em 2017 completa o primeiro centenário do Cineclubismo no Brasil, embora as mentes atrofiadas dos detentores do “poder” dirigente do Movimento Cineclubista a época, não reconhecem a data “paredão” e sim a “Chaplin Club”. É apenas uma questão de ponto de vista ou falta de foco na atividade memorial cineclubista. Se o Cineclube Paredão existiu ou não, não é questão, é fato. Se ele foi proto ou pleno cineclube, é narrativa. No entanto, Paredão é contribuição seminal!



Do Paredão a primeira fase do Clube de Cinema de São Paulo – 1940/45 -, ganhou relevância a experiência do Chaplin Club, que nos deixou registrado seu legado de importância fundamental, ficando para depois da segunda guerra mundial, a pouco conhecida, mas significativa contribuição da igreja católica ao cineclubismo brasileiro, marcada de forte teor teológico.

Com o firme propósito de defender o cinema mudo em detrimento do falado, os membros do Chaplin Clube se esmeraram em seus argumentos, mas terminaram por enaltecer muito mais o cinema ilusionista do que a diversidades de outras filmografias mais realistas, voltadas para o filme como ferramenta de discussão dos conflitos sociais do homem, que a fuga destes. Seria prematuro atribuir ao Chaplin Clube uma tendência ideológica a partir de suas reflexões críticas sobre o cinema em geral, propósitos que eles não professaram.


Ganha essencial relevância a segunda fase do Clube cinema de São Paulo, que ao retoma suas atividades a partir de 1956, ramificando suas atividades para muito além da simples difusão. Eles vão criar uma vasta gama de eventos e organizações pilares do cinema brasileiro, começando pela Cinemateca Brasileira/SP, a Cinemateca do MAM/RJ, A Cinemateca Guido Viaro de Curitiba/PR, vários Festivais de cinema, o movimento do Cinema Novo, o Centro de Cineclubes de São Paulo, marco nascedouro do Movimento Cineclubista Brasileiro e depois veio a realização da I Jornada de Cineclubes Brasileiros e subsequente o Cineclube da Faculdade de Filosofia do Rio de Janeiro, os Clubes de Cinema de Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador, Fortaleza, Manaus, Teresinha, Belém, Recife, Natal, Brasília, entre outros.
Mesmo sendo um período de forte influência dos cineclubes católicos, sua contribuição reflexiva sobre o cineclubismo é de fundamental importância sua contribuição. Já nesta época, década de 1950, a presença de ações isoladas de grupos de cineclubistas ligados ao Partido Comunista Brasileiros, exibindo e debatendo filmes em Sindicatos e nas organizações do movimento social, já era foco de disputa velada, por um espaço de predominância, num segmento sócio cultural dos mais significativos da sociedade brasileira da época, o cineclubismo.

O país, principalmente o Brasil litoral vivia um período[1] de grande efervescência social, os cineclubes ensaiam uma face mais popular, com os cineclubistas cineastas, também participes dos Centro de Cultura Popular – CPC - da União Nacional dos Estudantes – UNE -, produzem o filme “5 vezes Favela”, passaporte da atividade de difusão dos cineclubes com o movimento estudantil da União Nacional dos Estudantes, para a realização.


Esta junção fortalece o surgimento de novos cineclubes, a disputa interna adianta-se com ímpeto para o campo mais teórico, enquanto a presença da igreja como promotora da ação vai cedendo lugar para alguns cineclubes, dois deles mais se destacaram: O Cineclube Pró-Deo[2] de Porto Alegre, de ascendência católica e o Cineclube do Centro Dom Vital[3], em São Paulo, embora atuando dentro de uma instituição de orientação católica, seus membros em sua imensa maioria, eram também de tendência marxista.

                                                           Alfredo Sternheim, Cc Dom Vital 

                              




       Gustavo Dhal, Cc Dom Vital


                                                                         Jean-Calude Bernardet, Cc Dom Vital 

 
       Filme do crítico Rubem Biáfora, Cc Dom Vital 

Esta simbiose mantém o crescimento do Movimento Cineclubista e com a realização das jornadas, cria-se em 1965, o 1º Festival do Filme Brasileiro de Curta-Metragem, durante a realização da V Jornada Nacional de Cineclubes, ocorrida em Salvador, BA, findando sua curta existência com a 3ª edição, no âmbito da 7ª Jornada, Brasília, DF, 1968, quando os cineclubes confrontam com o aparato repressivo do Regime Militar. A 7ª Jornada se transforma num épico contra a liberdade de expressão censura pela Ditadura, culminando com o encerramento das atividades dos cineclubes a partir de dezembro de 1968, depois da edição do Ato Institucional de nº 5 – AI-5. Os anos de 1969 a 1974, os cineclubes estarão ausentes enquanto movimento organizado, da cena cultura do país.


O processo de reorganização do Movimento Cineclubista no início da década de 1970, ocorreu sob a recomendação do Partido Comunista Brasileiro – PCB -, que compreendeu a importância da contribuição que os cineclubes vinham prestando ao desenvolvimento do Cinema Brasileiro. Daí por diante e todo o processo de reorganização do Movimento e a direção, estará sob a influência das ideias do partido.


O racha do partido comunista com relação a adoção da guerrilha como alternativa de combate à ditadura, terá influência significativa na atividade dos cineclubes, entre eles o Cineclube Tirol em Natal, RN, ao cineclube Aquiry[4] em Rio Branco, no Acre, no Cineclube Glauber Rocha no Rio, a direção da Federação de Cineclubes do Estado do Rio de janeiro. Enquanto o seu presidente, estava voltado para a produção cinematográfica[5], o seu vice estava entre os guerrilheiros que sequestraram um avião e seguiram para o exílio, em Cuba.


Após a “Carta de Curitiba”, documento norteador das atividades cineclubistas exercerá certa hegemonia na política cineclubista, apesar de ter sido escrita pelo crítico de cinema Eli Azeredo, tido como “católico conservador”, que não se furtou em conciliar na versão final do documento com um dos mais brilhantes membros do partido na época e que fora eleito vice-presidente do Conselho Nacional de Cineclubes, Marco Aurélio Marcondes, tendo como presidente um católico convicto, Carlos Vieira.

A VIII Jornada foi também, berço do surgimento de uma vertente de oposição ao projeto espelhado nas deliberações finais daquele documento, definidor da opção cineclubista pela exibição. A oposição surge em função imbricado binômio exibição/distribuição[6]. Daí surge a ideia de se criar uma distribuidora de filmes que desce sustentação as atividades dos cineclubes, livrando-os da dependência do mercado. A disputa que surge a partir dessa polêmica aponta o caminho do cineclube como exibidor, com potencial proporção para se criar uma alternativa de exibição do filme brasileiro, com a criação de um circuito de exibição que contemplasse filmes de temáticas críticas a realidade social e política do país. A outra propositura apontava para um cineclubismo que caminhava na direção da reflexão da crítica e da estética, aliada a realização cinematográfica, canal de ligação direto com a distribuição e a difusão, visão capitaneada pela vértice “trotskista” no Movimento Cineclubista.

Estas duas tendências se confrontaram, na disputaram pela direção do Movimento Cineclubista Brasileiro, tendo como palco a realização da XII Jornada Nacional de Cineclubes, ocorrida na cidade de Caxias do Sul, RS, 1979. Naquela disputa as concepções se fizeram claras, pelo menos para as lideranças do cineclubismo, que ali, com veemência a verve se expuseram.


Tal foi o susto para a tendência vencedora que concebia o cineclubismo comprometido com a exibição e a difusão da obra cinematográfica, que circuito de exibição se aprimorou e com ele sua visão de organizar o público, tanto a favor do cinema como do re-estabelecimento do Estado de Direito no país. Para manter-se majoritária na direção do Movimento essa tendência se organizou internamente no seio do Movimento Cineclubista, com o codinome “Avançar[7]”. Dela fazia parte e eram maioria, cineclubistas que membros do Partido Comunista Brasileiro.

O que surgiu de lá para cá, 1979/80 aos dias atuais, 2017, foi outra tendência política, inspirada num misto de marxismo com teologia da libertação, sedimentada fortemente na práxis pedagógica e cineclubista, centrada nas concepções de condutas teóricas, práticas, éticas e morais da “Avançar”.

Evidente que uma reflexão mais aprofundada dessa questão, considerando os acontecimentos que deflagraram a queda do Muro de Berlin, o avanço do Neoliberalismo com o Consenso de Washington e a nova configuração global, em particular da América Latina e mais especificamente, contextualizando a atividade do Movimento Cineclubista do século 21 – 2004 a 2015 -, a partir dos acontecimentos da XXV Jornada, com a criação do outro Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros, o CNC do B, a docilidade com a pauta estatal e, apesar da assimilação das novas tecnologias pela pratica cineclubista, é possível identificar outras tendências, bem próxima - grosso modo -, dos que se identificam com a ideia do “Estado Mínimo” e os que mais advogam as causas do “Estado Forte”. Embora isso não ultrapasse a linha ideológica do marxismo, ela ajudará a redesenhar o cineclubismo.

Em situações desta natureza é imprudente ignorar a voz do silêncio, daqueles que não se manifestavam, mas atuam dentro daquilo que se convencionou chamar de prática cineclubista, que neste momento é o que mantém acessa a chama do cineclubismo.

Por outro lado, as cisões que o movimentou vem sofrendo desde então, pode não se configurar lepidamente numa tendência ideológica, mas com certeza, em alguns momentos históricos do movimento, representou uma nova postura, contribuiu com seu desenvolvimento e com certeza do Cinema Brasileiro.

Difícil de ser percebida, mas ela existe, está no ar e nas práticas de um Novo Cineclubismo em processo permanente de construção. No entanto, essa expressão silenciosa, se não explicitada, corre o sério risco de virar inconformismo, massa de manobra, de parca consequência, capaz apenas de influenciar esta ou naquela corrente, em algum momento específico, mas que se manterá na mesma condição de convivência suportável do jogo democrático.

Diogo Gomes dos Santos
Cineclubista, Cineasta, Historiador






[1]  - O pós-guerra, a volta e a morte de Getúlio Vargas, o aceleramento da industrialização, a reconstrução do mundo e em particular da Europa, a legalização do Partido Comunista do Brasil, o movimento cinematográfico do neo realismo italiano, a nouvelle vague francesa, o novo cinema latino-americano, o cinema novo brasileiro, o rock americano, a bossa nova, a bienal de São Paulo, o fim da chanchada, o movimento concretista, o MCP no recife, o CPC da UNE, a revolução cubana, a jovem guarda, a tropicália, duas décadas de muitas transformações sócio culturais, entre cortada por um golpe militar, com uma pequena fase de resistência, até o contra golpe dentro do golpe militar, instaurado no país em 1º de abril de 1964 e em 13 de dezembro de 1968, com a edição do Ato Institucional de nº 5 AI-5. 
[2] - http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/encontros-nacionais/6o-encontro-2008-1/Cineclubes%20Catolicos%20e%20Imprensa.pdf
[3] - http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000441114
[4] - http://cineclubeaquiry.blogspot.com.br/
[5] - Nesta época Silvio Tendler era o presidente da Federação do Rio e estava entrevistando o Marinheiro João Cândido para um seu filme, enquanto o seu Vice, Elmar Oliveira fez opção por outra forma de luta contra a Ditadura Civil Militar, participando do único sequestro de avião ocorrido no Brasil.
[6] - A Diretoria eleita do CNC rejeita de imediato a ideia de se criar uma distribuidora, mas reavalia sua posição e quando chega na realização da IX Jornada, concorda com a proposição da distribuidora, a plenária aprova e no ano seguinte, surge a Dinafilme - Distribuidora Nacional de Filmes para Cineclubes.

[7] - Avançar, expressão usada por Stalin quando este ordena para o exército vermelho avança sobre o exército nazista, sitiado em Leningrado, durante a Segunda Guerra Mundial. A avançar sempre foi muito crítica com relação as práticas stalinistas.

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